Crónicas da Sábado: absurda é a realidade

Ficaram famosas
muitas das reportagens de faz de conta que o semanário “Tal&Qual” publicou
ao longo de

quase toda a sua já encerrada
história. Desde o deputado Manuel
Catarino, tranquilamente sentado no hemiciclo em S. Bento, até à entrada de uma
equipa de técnicos de ar
condicionado
no Ministério dos Negócios Estrangeiros, para provar que
a segurança do ministro Jaime Gama era uma treta. E passando pelo golpe clássico
da imitação da voz do primeiro-ministro Cavaco Silva, que telefonou a diversas personalidades para
as convidar para o Governo. O imitador Canto e Castro foi perfeito nesse papel,
com o deputado do PSN, Manuel Sérgio – um dos diversos apanhados na armadilha – a mostrar-se
maravilhado com a honra do convite.

Históricos foram ainda os barretes
enfiados pelo diário O Século,
com a célebre cena dos árabes de aviário de Nicha Cabral, que fez manchete, há
40 anos, e levou à demissão do chefe de redação, José Mensurado, e a
inacreditável visita da comitiva
ministerial
de um inexistente ministério a várias autarquias, uma
reportagem liderada por José Paulo Fafe e que foi publicada na primeira série da
revista Sábado, há duas
décadas.

Aliás, a pródiga imaginação nacional
ultrapassou mesmo fronteiras. Há uns 15 anos, uma agência de comunicação com
sede em Lisboa foi contratada pela candidatura de uma personalidade santomense
que ia disputar as eleições para a presidência da república. Ao chegar a São
Tomé, os especialistas portugueses verificaram que o candidato dispunha de
reduzida influência na comunidade e de quase nenhuns apoios, ou seja, na prática
não existia do ponto de vista político. Como dar-lhe visibilidade foi a questão
que se pôs.

O problema, assustador, não
perturbou a lusa inteligência, que facilmente contratou quem se dispusesse a
disparar uns tiros a determinada hora da noite, algures na capital. A seguir,
pôs-se a correr o boato que o candidato sofrera um atentado, o que revelava que,
afinal, alguém o temia. E colocado dessa forma no mapa eleitoral, o homem lá se tornou alvo
da curiosidade dos media e saiu
da zona de penumbra. A
história só não acabou da melhor maneira porque a candidatura era tão fraca que
nem assim se safou. E a
nossa agência também não porque nunca viu a cor do
dinheiro.

Hoje, este tipo de graças perdeu
impacto porque a sociedade se transformou num reino de fantasia. Vendo
mentirosos eleitos e bandidos à solta, e sendo forçados a considerar o roubo de
salários e reformas como um acto normal, já pouco resta que nos consiga
surpreender. Talvez só a nova ameaça, o celerado plano B, e logo a seguir o caos – a
própria realidade a substituir o absurdo. 

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 8 novembro 2012. Tema de Sociedade da semana: imitação de vozes

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