Crónicas da Sábado: A última tatuagem

Em pleno período da guerra colonial recebi um alerta, eu, que no meio de todos os meus defeitos julgo ter a virtude de nunca desvalorizar um sinal, nunca deixar de ter em conta uma lição, nunca desprezar um aviso. Montada a estratégia de impedimento a uma bela carreira na tropa, passei dois meses terríveis no hospital militar de Évora. Recordo em particular um domingo de Julho, daqueles de 40 graus, com a família a ir de Lisboa no Anglia do meu pai, sem auto-estrada, nem ar condicionado, e a minha filha Teresa, então com 3 ou 4 anos, a derreter-se com o calor, coitada.

Estava naturalmente tudo preparado para que aquela unidade se parecesse pouco com um hospital, pelo que as condições de existência, em especial as de higiene e de alimentação, eram inacreditáveis. Os pijamas, por exemplo, que o suor colava ao corpo, mudavam-se de 15 em 15 dias, e jamais esquecerei a minha mão estendida para uma roupa lavada que um sargento lateiro me recusou. Creio que, no fundo, ele sabia que eu não passava de um actor, mas não foi capaz de imaginar o que esse contratempo constituiria para mim: o tal alerta de que não há direitos sem combate e de que na vida até o óbvio é incerto. Perdi boa parte da ingenuidade e passei a desconfiar – antes de tudo da própria sombra. E gravei uma tatuagem em estreia: pensar primeiro. Se tivesse pensado, teria aliciado o graduado básico e trocado de pijama todas as semanas.

Mas, por muitas lições que recebamos, há que reconhecer que continuamos a saber pouco. E só largos anos mais tarde o destino permitiria que concluísse a licenciatura. O exame começou no final de 1997, num edifício do Marquês de Pombal, em Lisboa, apenas com vidros nas janelas e alcatifa no chão, quando me incumbiram de preparar os meios e formar a redacção de um futuro diário, o 24horas. Seria, no dizer do profeta, um título de referência, com jornalistas a recrutar no Público e no Diário de Notícias, a todo o custo, e ao mesmo tempo um jornal popular, com profissionais a contratar em A Capital, que entrara em agonia. Uma salada que só poderia acabar como acabou, mal.

Depois vieram os temperos: a gestão do caos criado pelas contradições do projecto editorial, mas igualmente pela interferência suíça no grafismo, pelas intrigas geradas pela indefinição de funções, pela explosiva mistura de doutores e analfabetos, pela inexistência de uma equipa de comando, o erro maior. Pronta a receita, como o jornal não saía, arranjou-se um bode expiatório, o chefe de redacção, ou seja, a minha cabeça foi servida em bandeja ao accionista.

Licenciatura terminada, pude tatuar uma segunda e última inscrição: burro, nunca mais. Última? Bem, o problema é que amanhã é outro dia e eles andam aí.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 23 setembro 2010

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