Crónicas da Sábado: a solução é passar fome

Tenho uma qualidade inestimável desde que me conheço: engordo e emagreço conforme me apetece. O que, sendo verdade, já não é hoje totalmente assim, mas mais como os médicos vão arengando, conhecendo como conhecem melhor que ninguém a nossa fraqueza face à velha ilusão da imortalidade.

Nos idos de 70, quando passei a ter três ocupações – de manhã o Diário de Lisboa, de tarde e de madrugada a Emissora Nacional, e à noite, três vezes por semana, o Núcleo de Teatro da EDP, então CRGE – e deixei de jogar voleibol, limitando a atividade física às futeboladas de sábado de manhã, engordei e cheguei aos 90 quilos. Com 1 metro e 90, eis a autêntica
besta.

Aos 30 anos, uma intervenção cirúrgica fez-me baixar de 84 para 74 quilos, o valor mais reduzido de sempre. Desde então, o sobe e desce da balança situou-se entre os 82 e os 85, sendo esta última a marca que se registava há dois anos, altura em que uma crise vagal – sequela da tal intervenção que tornou o nervo vago numa inutilidade – me forçou a tomar medidas drásticas: deixar cair o peso até aos 77 quilos que tenho agora, o que consegui em pouco mais de dez dias, comer só com a garantia de que vou andar quilómetros a seguir e ainda abolir meia dúzia de alimentos com os quais o fígado e o resto nunca conseguiram manter uma relação de não agressão.

Foram dias interessantes, em que senti a comiseração de alguns amigos e a alegria discreta de outros menos amigos, pois a súbita quebra de peso e o consequente aumento das rugas na cara juntaram-se à bola de bilhar da careca, o que fez com que a suposição de doença grave se instalasse nos espíritos.

Por tudo isto e por jamais ter gasto um cêntimo com nutricionistas e produtos para dietas, divirto-me um bocado – quando a questão não é de saúde, claro – com os esforços, muitos deles infrutíferos, que tanta gente desenvolve para enfrentar a ditadura da balança. E num tempo em que, na televisão, ouço curiosos a dar sentenças, do foro clínico como do jurídico, sem que as respetivas ordens atuem ou sequer se incomodem, bem poderia eu editar também um livrinho com bitaites sobre comes e bebes, a ver se me orientava.

Ou talvez não, em boa verdade o meu segredo – que consiste simplesmente em não comer, passar fome, ponto final – não pode ou não deve ser seguido pelo comum dos mortais. Acho que é até bastante perigoso por causa da baixa repentina dos níveis disto e dos índices daquilo. Aconselhável, mesmo, é permitir que as pessoas encham as panças com o que quiserem para depois tomarem umas drogas que, obviamente, produzem efeitos limitados. É como tudo na vida: há que sofrer. Quem não estiver para isso, paga ao dietista.

Observador, publicado na edição impressa da Sábado de 14 março 2013

 

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