Crónicas da Sábado: a deceção António Costa

O meu único contacto com
António Costa deu-se quando ele me enviou um extenso relatório sobre o
investimento
que a Câmara Municipal
de Lisboa tinha feito em pilaretes, na sequência de uma crónica minha,
aqui na SÁBADO, em que me insurgia contra o défice dos ditos no bairro de
Telheiras, onde moro. Foi uma resposta em dois dias, que revela, no mínimo,
atenção e competência. Mas sou, para a vida, admirador de duas pessoas que lhe
são bem próximas: Maria Antónia Palla, uma grande figura do jornalismo
português, e Manuel Pedroso Marques, com quem tive o privilégio de trabalhar e
de quem guardo as melhores recordações.

Faço esta declaração de
interesses
por respeito a quem me lê, antes de manifestar a profunda deceção
que me causou a última trapalhada do PS, não por esperar muito mais,
apenas por se me ter metido na cabeça que só voltaria a votar para deitar o
papelinho em António Costa, fosse lá quando fosse. Vejo no presidente da CML
uma forma diferente de encarar a política, sinto-o mais comprometido com os
cidadãos, reconheço-lhe uma capacidade de comando menos voltada para as
promessas e para as conversas de chacha e, principalmente, penso que seja,
nesta altura – enredado que se encontra Paulo Portas na teia de contradições de
apoio a um Governo que nos conduz a nenhures – o único dirigente partidário com
qualidade e credibilidade suficientes para definir e liderar um projeto
nacional que consiga mobilizar a nossa desgraçada sociedade e devolver a esperança
aos portugueses.

Agora, confesso que hesito.
Não entendo porque foi António Costa prejudicar uma candidatura vencedora nas
autárquicas só para se afirmar como alternativa ao que na verdade não tem
alternativa neste momento. O Executivo não está para cair, o aparelho segue
embevecido com António José Seguro e a débacle da direita nas próximas
eleições ajudará o líder do PS a convencer os convencidos de que o poder lhes
cairá nas mãos e haverá empregos para todos.

Não é ainda o tempo de António
Costa, o País continua – estranhamente mas continua – sem rejeitar com vigor
estes rapazolas que nunca precisaram de pedalar para subir a montanha da vida,
estes impreparados de cabelo a encanecer que vêem os anos escapar-se-lhes sem
que o espelho do reconhecimento público lhes diga como são belos. Seguro é o alter
ego
de Passos Coelho, o príncipe que ficou para trás quando o rei fez a
escolha.

Ao recuar, António Costa tornou-se
refém de negociações que terminarão na paz podre que serve a ânsia do
mando e das mordomias. Espero que se trate da manobra que emende o passo em
falso. Não quero, ao menos, deixar de sonhar.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 7 fevereiro 2013

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