Crónicas da Sábado: a agonia do papel ou a grande migração

Existe uma flor no campo repleto de horríveis coisas: é que não se sabe como vai acabar, o que abre uma janelinha à esperança. Talvez não seja tão mau, assim. Estou a referir-me, neste emaranhado de sentimentos que quase nos asfixia e que resulta de uma avalancha de deprimentes notícias que parece não ter fim, à crise que ataca, de forma muito, muito preocupante, a informação em suporte papel – tanto jornais como revistas, não há escapatória.

A semana iniciou-se para nós, jornalistas, e para as empresas de comunicação social, da pior maneira, com a divulgação – pela Associação Portuguesa para o Controlo das Tiragens (APCT) – dos aterradores números de vendas em banca, no primeiro bimestre do ano. Não me referirei a títulos, pois uns aguentam-se melhor do que outros e nem sempre por produzirem um trabalho de maior qualidade, e vou salientar apenas resultados globais.

Começo pelos diários, os cinco generalistas mais os dois desportivos que aceitam a auditoria da APCT, que perderam, em Janeiro/Fevereiro e de um ano para o outro, mais de 44 mil exemplares/dia, o que corresponderá, no final de 2012, a manter-se a actual tendência de queda, a menos 16 milhões (!) de exemplares vendidos.

 Os quatro semanários de grande informação foram também afectados, já que o seu segmento de mercado caiu, em relação aos dois primeiros meses de 2011 – quando ainda se publicava a Focus – 31 500 cópias por edição, o que resultará, no final do ano, numa quebra de 1,6 milhões de exemplares.

Os cinco títulos cor-de-rosa – até esses – estão a perder 45 460 revistas por semana, o que elevará o tombo anual a mais de 2,3 milhões de exemplares. E idêntico número de publicações de televisão – mesmo assim o sector menos rudemente atingido – viu a queda ficar-se pelas 21 mil revistas, por edição, um pouco acima de 1 milhão quando chegarmos a Dezembro.

Só nestes quatro segmentos desaparecerão vendas em banca superiores a 20 milhões de exemplares até final deste ano, o que, somado à quebra das receitas publicitárias, acentuará as dificuldades das empresas de media em transformar em receitas relevantes o imparável crescimento das suas edições gratuitas online. Destaco aqui a situação de Record, que fechou Abril, no site, com um novo máximo de pageviews – acima dos 210 milhões! – um exemplo que ajuda a explicar a migração geral dos leitores.

Conseguiremos suster a ameaça, gerindo melhor os recursos e trabalhando mais? Talvez. Mas pode ser tarde para mudar a nossa tradicional atitude perante a desgraça: em vez de nadar, habituámo-nos a pôr as mãos na cabeça, como os macacos. E a acabar afogados.

Observador, publicado na edição impressa da Sábado de 3 maio 2012

Existe uma flor no campo repleto de horríveis coisas: não se sabe como vai acabar, o que abre uma janelinha à esperança. Talvez não seja tão mau, assim. Estou a referir-me, neste emaranhado de sentimentos que quase nos asfixia e que resulta de uma avalancha de deprimentes notícias que parece não ter fim, à crise que ataca, de forma muito, muito preocupante, a informação em suporte papel – tanto jornais como revistas, não há escapatória. 
A semana iniciou-se para nós, jornalistas, e para as empresas de comunicação social, da pior maneira, com a divulgação – pela Associação Portuguesa para o Controlo das Tiragens (APCT) – dos aterradores números de vendas em banca, no primeiro bimestre do ano. Não me referirei a títulos, pois uns aguentam-se melhor do que outros e nem sempre por produzirem um trabalho de maior qualidade, e vou salientar apenas resultados globais. 
Começo pelos diários, os cinco generalistas mais os dois desportivos que aceitam a auditoria da APCT, que perderam, em Janeiro/Fevereiro e de um ano para o outro, mais de 44 mil exemplares/dia, o que corresponderá, no final de 2012, a manter-se a actual tendência de queda, a menos 16 milhões (!) de exemplares vendidos. 
Os quatro semanários de grande informação foram também afectados, já que o seu segmento de mercado caiu, em relação aos dois primeiros meses de 2011 – quando ainda se publicava a Focus – 31 500 cópias por edição, o que resultará, no final do ano, numa quebra de 1,6 milhões de exemplares.
Os cinco títulos cor-de-rosa – até esses – estão a perder 45 460 revistas por semana, o que elevará o tombo anual a mais de 2,3 milhões de exemplares. E idêntico número de publicações de televisão – mesmo assim o sector menos rudemente atingido – viu a queda ficar-se pelas 21 mil revistas, por edição, um pouco acima de 1 milhão quando chegarmos a Dezembro. 
Só nestes quatro segmentos desaparecerão vendas em banca superiores a 20 milhões de exemplares/ano, o que, somado à quebra das receitas publicitárias, acentuará as dificuldades das empresas de media em transformar em receitas relevantes o imparável crescimento das suas edições gratuitas online. Destaco aqui a situação de Record, que fechou Abril, no site, com um novo máximo de pageviews – acima dos 210 milhões! – um exemplo que ajuda a explicar a migração geral dos leitores. 
Conseguiremos suster a ameaça, gerindo melhor os recursos e trabalhando mais? Talvez. Mas pode ser tarde para mudar de atitude face à desgraça: em vez de nadar, habituámo-nos a pôr as mãos na cabeça e a acabar afogados.

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