Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónica da Sábado: salvo pela ASAE

Curiosa a opção da SÁBADO por histórias de emergência a bordo de aviões. É que vejo os casos de pessoas que tiveram ataques cardíacos e que chegaram até a finar-se lá nas alturas, poucos dias depois de eu próprio ter estado não direi a morrer, mas a dar um decadente espectáculo cá pelas baixuras.

Com a primeira otite da minha vida, há semanas, em Madrid, calhou-me agora a estreia mundial da entrada numa ambulância a caminho da urgência hospitalar. É o segundo sinal, em curto espaço de tempo, de que a máquina começa a ceder, pelo que é bom não continuar a ficar descansado com o check-up regular, feito sempre no último trimestre e que tive de antecipar este ano por causa da crise. Uma crise de fígado que vem de longe, de uma hepatite logo aos 15 anos, curada com os recursos da época, e que me tem obrigado a não abusar disto e daquilo. Por vezes, faço-me esquecido, quero dizer, arrisco-me a comer o que não devo, fiado na habitual generosidade da reacção.

Acabou. O magnífico queijo da serra que devorei, em dose industrial, no restaurante Bem-Haja, uma preciosidade de Nelas, provocou-me um terramoto figadal tal que me deixou, já em Lisboa, quase incapaz de dormir e de me alimentar nos dias seguintes, terminando por me fazer tombar em plena rua. 

Sentia-me enjoado quando entrei num restaurante onde, por puro azar – ou a mando do soba da tribo de todos os bruxedos, vá lá saber-se –, se avariou o sistema de extracção de ar da cozinha e se recriou, por entre as mesas, o ambiente do melhor fog londrino. Levantei-me em minutos, agoniado e com falta de ar, e vim para a rua caminhar sem destino. Piorei e, burro, nem fiz por vomitar, nem me sentei, encostado à parede. Não tinha andado mais de umas dezenas de metros quando percebi que a calçada esperava por mim.

Bater com a cabeça no chão era o perigo maior, pelo que fui contra um carro estacionado para amortecer a queda. Um senhora da ASAE, que ia a passar, ainda me conseguiu deitar a mão e evitar talvez o pior. Mas numa rua de esplanadas e à hora de almoço, um grandioso espectáculo se havia iniciado.

Não cheguei a desmaiar, pelo que pude ficar atento à sucessão de quadros: do médico, que me tomou o pulso, da enfermeira – supereficiente! – que não me largou até aparecer o INEM, do idoso que queria dar-me um dos comprimidos que trazia no bolso, da velhota que se benzeu e por certo me encomendou a alma, da inevitável inquirição popular: “É doente? Como é que caiu, coitado? Está amarelinho, não está? Foi atropelado? Já comeu alguma coisa hoje?”

Meia hora esticado num passeio lisboeta é um filme. Mas a seguir viria a sequela, no Hospital Curry Cabral, aventura que contarei para a semana.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 22 setembro 2011. Tema de Sociedade da semana: histórias de emergência a bordo de aviões