Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Cristiano Ronaldo na Terra e Marte para os marcianos

Dezassete dias depois de se ter lesionado, Cristiano Ronaldo regressou e somou mais um golo à sua coleção. Serão mais de 70 em 2013, outro número “do outro mundo”. O problema está nas largas dezenas de partidas que teve de disputar em 12 meses, como se a máquina humana fosse construída de ferro em vez de carne e osso.

Após o gigantesco esforço feito em Estocolmo, no confronto decisivo da Seleção, aconselhava o bom senso que o CR7 não tivesse atuado em Almería, pelo Real Madrid, poucos dias decorridos. Mas a euforia causada pelo espectáculo que proporciona, a dependência da equipa e a própria energia física e mental do nosso craque – e a sua ambição, essa sim de aço – só conhecem uma vontade: a de que jogue sempre. E Cristiano, que ainda apontou o primeiro golo dos merengues, acabou por sair, lesionado, no início da segunda parte. Sim, porque nem com a vitória garantida o homem abranda.

Passava-se o mesmo com Messi, também ele a conseguir, em épocas consecutivas, estatísticas “estratosféricas”. Até que chegou a hora em que não deu para aguentar mais e o maestro argentino, na sequência de breves mas repetidos interregnos, teve de parar – e por dois meses.

Coloco a questão a meio ano de um Mundial em que o sonho dos portugueses volta a percorrer caminhos para os quais não teremos pernas nem condições. E uma vez mais, na quilha do barco que fura o nevoeiro da realidade surge a imagem sebastiânica do madeirense. Mas de que Cristiano disporemos em Junho se o Real Madrid for, por exemplo, à final da Champions e, reentrando na luta pela Liga, a disputar até à derradeira jornada?

Tenham os madridistas um fim de época alucinante e dificilmente o capitão da Seleção se apresentará no Brasil sem acusar o desgaste causado por um esforço sobre-humano. Dir-me-ão que idêntica limitação sentirão outras estrelas. Certamente, mas é seguro que não jogaram tanto, não marcaram tantos golos, não percorreram tantos quilómetros, não levaram tanta tareia, nem deram tanto de si pelos seus objetivos profissionais como Cristiano. É melhor pormos os pezinhos na Terra e deixarmos Marte para os marcianos.

Canto direto, Record, 14DEZ13