Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Cristiano atirou com a braçadeira e fez bem

Ao cair do pano, a pressão era muita e o remate de difícil execução, sem hipótese de preparação e de ângulo reduzido – na sequência de um portentoso passe longo de Nuno Mendes. Mas Cristiano esteve ao seu nível, enviou a bola para a baliza e fê-la ultrapassar claramente a linha final, logrando aquilo que daria a vitória a Portugal. Com régua e esquadro não se faria melhor! Só que o jogo era da FIFA e de qualificação para o Mundial, pormenor de somenos, pelo que nem tinha um árbitro assistente capaz – o homem correu até à bandeirola de canto e fechou os olhos… – nem VAR, nem sequer a já vetusta tecnologia da linha de golo. Como é possível? E o juiz da partida, que não era português – ai se fosse! – fez igualmente vista grossa e evitou o meio apuramento que a derradeira proeza de CR7 nos daria. Se a palavra “roubo” se pode aplicar no futebol, e não se devia, é numa situação tão escandalosa como esta.

Pois apesar de tamanha evidência, os “gremlins” das redes sociais, apoiados nalguns comentadores frustrados por não viverem em Turim, condenaram sem a berraria que os distingue a asneira do apitador, criticaram mansamente as opções de Fernando Santos – a entrada de Renato Sanches brada aos céus, é certo, mas depois de vencer o Europeu o engenheiro silenciou para a eternidade os ignorantes – e centraram-se em quê? Isso mesmo: na irritada saída de campo do capitão da Seleção! Como se ele não tivesse razão ao ver-se esportulado de mais um golo histórico, obtido fora de casa e num momento decisivo da contenda. Ou como se lhe corresse nas veias sangue de barata e não interpretasse o sentimento de revolta que se apoderara da imensa maioria dos seus compatriotas.

Temendo que a gritaria não fosse suficiente, os invejosos da rede não se ficaram por aí, ampliando a sua indignação pelo facto de Cristiano, com o jogo terminado e à entrada dos balneários, ter atirado ao chão a braçadeira de capitão, esse glorioso e acrisolado símbolo da Pátria, que faz do Hino e da Bandeira simples apêndices da nacionalidade… Que falta de noção!

Perseguir Cristiano Ronaldo por atravessar uma fase menos feliz de forma, em boa parte devido aos deprimentes insucessos da Juventus, sublinhando que não marca pela Seleção há quatro jogos – que são realmente três porque no sábado fez o que lhe competia – é o passatempo preferido dos idiotas que sempre anunciam a morte sabendo que algum dia ela virá. Com a vacinação a correr bem, os novos casos de covid em queda e o desconfinamento progressivo a avançar, este pequeno tropeção da Seleção vem mesmo a calhar à cambada. E se amanhã não ganharmos ao Luxemburgo? Por esta altura, deve haver por aí muitos grunhos em oração.

A terminar, um aceno para Rui Jorge e para o trabalho modelar que desenvolve nos sub-21. Sim, não é só a seleção principal que tem aquele que é, talvez, o melhor plantel de equipas nacionais do Mundo. Também nos mais novos essa qualidade está presente, como se confirmou ontem com o belo triunfo sobre os ingleses, que nos últimos anos vêm somando êxitos nos escalões jovens. Chapeau!