Contracrónica do FC Porto-Sp. Braga: muito trabalhinho tem havido lá para cima…

Com duas equipas portuguesas a jogar na capital da Irlanda, só faltou o árbitro ser grego e os auxiliares islandeses para se reunirem representantes dos quatro países falidos do Velho Continente. Em boa verdade, a final da Liga Europa não foi mais que um “fait-divers” que rapidamente se esfumará – das nossas cabeças, não da história do futebol ou da memória de portistas e bracarenses – tal o índice de preocupação com a crise, seja a política, seja a que se instalou, para ficar, nos bolsos dos portugueses.

Com as eleições de 5 de junho a obrigarem os partidos do arco da desgovernação a esconderem o jogo e a dourarem a pílula, não há dia que passe que não surjam revelações tenebrosas sobre mais um ataque às finanças familiares. Elas vão do aumento do IRS, que já sentimos na folha salarial ainda com a procissão no adro, ao aumento do IMI e ao final das isenções, passando pelo agravamento dos “spreads” dos empréstimos à habitação, a que os bancos vão poder proceder em determinadas condições, como explicou ontem o “Jornal de Negócios”, pondo termo à confusão lançada pelo diário fantasma e também pelo que ora se autoproclama como o da “proximidade” com o leitor.

Pois foi a este espírito de desânimo e frustração, criado pelos vendedores de ilusões, que FC Porto e Sp. Braga deram um importante abanão, ajudando a contrariar – igualmente com um Benfica que se finou nas “meias” – a tese da ciência futebolística, a que tantas vezes aqui recorri, que garante estar o futebol nacional em crise, mesmo que se considere agora que dos 22 jogadores que subiram ao relvado do Dublin Arena apenas um terço eram portugueses – até Rolando, no impressionante desfile de bandeiras protagonizado pelos  portistas na hora da festa, se “vestiu” de Cabo Verde… Certo, certo é que os emblemas que se enfrentaram na partida decisiva eram dos nossos e não dos países cujo poderio económico se sente igualmente no pontapé na bola.

Mas a final de ontem constituiu ainda outro exemplo notável, interpretado por igual por dois clubes de desigual capacidade financeira: o do mérito do trabalho, do empenho, do sofrimento e da competência. No futebol, ao contrário do que acontece no país virtual que viveu ao longo de décadas com o dinheiro  que não era seu, o que parece é. E António Salvador seguiu o caminho de Pinto da Costa, o de montar a “máquina” capaz de obter resultados e atingir objetivos. Porque estes não surgem reunindo só bons profissionais, mas integrando-os numa estrutura inimiga do compadrio e amiga da competência. Foi por terem sido capazes de entender isso e de traçar um rumo que os dois clubes nortenhos estão de parabéns.

Tenho um amigo com dois filhos completamente diferentes. Um é reservado, mesmo introvertido. Estudou, licenciou-se, procurou trabalho e sofreu para se impor, ganhando pouco e suando muito. Alcançou um bom salário, casou-se com uma mulher que o puxa para cima e constituiu família. Hoje, é uma pessoa saudável que se preocupa com o futuro, tentando aproveitar a vida mas fazendo os seus aforros. O outro filho tem um estilo diferente. É falador e extrovertido. Nunca quis estudar e salta de emprego para emprego, sempre com salários baixos. Casou-se com uma mulher ainda menos dada ao esforço, tem uma saúde débil e paga empréstimos arranjando mais empréstimos.

Pois esse meu amigo, dividido entre o amor igual que nutre pelos filhos, não reconhece qualquer diferença entre eles, exceto os favores da fortuna. Um tem tido uma sorte incrível, o outro é um azarado como ele nunca viu.

Desde que ganhou o seu primeiro título, uma Taça de Portugal, ainda como diretor do departamento de futebol do FC Porto, em 18 de maio de 1977 – cumpriram-se ontem 34 anos, André Villas-Boas estava para nascer… – Pinto da Costa acumulou um rol inigualável de troféus: 20 campeonatos nacionais, 12 taças de Portugal, 17 supertaças, uma Taça dos Campeões, uma Liga dos Campeões, uma Taça UEFA, uma Supertaça europeia e duas taças intercontinentais – se o Record não se enganou na lista. São 55 títulos só no futebol profissional, uma barbaridade.

Existe nesse currículo alguma sorte? Sem dúvida. Não há campeões com azar. Mas a sorte não dá para mais que uns fogachos se não recair em gente inteligente, organizada, talentosa e eficaz. Veja-se a “vaca” do lance do golo que deu a quinta vitória europeia aos portistas: o azar de Rodríguez a perder a bola, a sorte de Guarín na execução daquele centro teleguiado que “procurou” Falcão, a sorte do avançado ao fugir, como é seu hábito, nas costas do defesa, e o azar de Paulão, sozinho, a marcar dois… A seguir, claro, um derradeiro golpe de sorte do colombiano, a desviar a bola do futuro benfiquista Artur e a dar o terceiro título da época ao FC Porto. Se não fosse esta “sorte” toda, a história seria outra. Mas foi esta porque a sorte tem sido perseguida, época após época, por muita dedicação, muita capacidade, muito trabalhinho.

Aqui chegados e revisto o escrito atrás, temos de fazer uma correção. É que o presidente portista não soma os tais 55 títulos que referi, já que não deixou terminar o mesmo dia 18 de maio em que comemorou o primeiro sem lhe juntar mais um, o 56.º… E se o Vitória de Guimarães deixar, no domingo serão 57! É caso para dizer que é muita fruta.

Contracrónica, publicada na edição imressa de Record de 19 maio 2011

Partilhar

Os comentários estão fechados.