Chegámos a isto – 4

1. Concordo com a justificação do presidente do Tribunal Constitucional para a recusa de aprovação dos cortes das pensões da Caixa Geral de Aposentações. Ouvi a defesa do “balanceamento” e a crítica à “desconformidade”, o que é bonito. Só não entendo porque não seguiu esse caminho o TC quando deu luz verde ao confisco de reformas do regime geral. Os doutos juízes irão aposentar-se pela CGA? Sim, mas isso será simplesmente uma coincidência.

2. Bandeiras em arco não faltam pelo acordo entre o PS e a maioria quanto à reforma do IRC, com muitos opinadores animados com o que essa aliança poderá trazer no futuro. Só se Seguro não estivesse bom da cabeça, claro. O líder socialista deu apenas um sinal de boa vontade que lhe valeu mais alguns milhares de intenções de voto, mas não se disporá a ir além disso. Por um lado, não lho permite o partido, que não quer misturas com a política de direita – ou seja, com o trabalho sujo que tanto jeito lhe dará quando for poder – e por outro não precisa, já que a governação acabará por lhe ir parar às mãos. Em 2015, ou mesmo antes, se em junho o programa cautelar trouxer, em vez do abrandamento sonhado, novas cargas de austeridade.

3. A greve de professores no dia das provas de avaliação pôs outra vez o país contra eles. Não pela posição em si, que seria respeitável se o ensino não tivesse descido aos níveis que conhecemos, mas pela postura adotada pelos grevistas, que ninguém gostaria de ver transmitida aos filhos: histerismo e fitas preparadas para os telejornais – a senhora que levou o bebé, por “não ter a quem o deixar”, o que fará na hora de ir trabalhar? –, desrespeito pelos direitos dos não grevistas, insultos aos agentes da polícia – apelidados de “palhaços” por cumprirem o seu dever – e aos próprios colegas, classificados de “carrascos” por colaborarem nas avaliações. Ficámos esclarecidos quanto ao civismo de pessoas cuja profissão exige que comecem por ser exemplo.

4. Na RTP, o ministro da Educação passou com distinção no severo exame a que o sujeitou José Rodrigues dos Santos, a propósito de mais uma situação conflitual com os docentes. Habituados à modéstia do raciocínio de alguns membros do Executivo, foi reconfortante ver Nuno Crato defender, com argumentos razoáveis e entendíveis por toda a gente, a opção pelas provas. Concorde-se ou não.

5. Aproxima-se o final do ano e nascem balanços diários e para os mais diversos gostos nos órgãos de informação. Curiosamente, não se consegue encontrar quase nada quando se procuram motivos de satisfação para os portugueses. As más notícias tornaram-se norma e chegam até a parecer razoáveis mal surgem as péssimas. Pesquisando bem, talvez se conclua que o único momento de alegria coletiva em 2013 se deu com a qualificação da Seleção Nacional para o Mundial do Brasil, uma proeza que se ficou a dever, em grande parte, ao talento indiscutível de Cristiano Ronaldo e à férrea determinação de Paulo Bento. E mal vai um país quando só o futebol, episodicamente, e as telenovelas, todos os dias, caçam os fantasmas que nos atormentam a vida.

Observador, Sábado, 24DEZ13

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