Caso Queiroz confirma: somos os palhaços da Europa

Prossegue a tentativa de linchamento de Carlos Queiroz, não por causa da dececionante campanha da Seleção no Mundial ou dos múltiplos casos – verdadeiros ou forjados, necessários ou criados inutilmente pelo próprio – que o selecionador protagonizou, mas por ter usado um palavreado insultuoso para com uma autoridade antidopagem.

Não deixa de ser curioso verificar tanto alarido em torno dessa pretensa ofensa, num país onde se fala porcamente por todo o lado, como Pinto da Costa fez questão de exemplificar numa roda de jornalistas embevecidos com o seu sentido de humor, ora de volta às lides. Sim, num país onde qualquer badameco – como aquele obscuro “realizador”que há dias chamou “idiota” ao Presidente da República – se dá ao luxo de insultar quem muito bem lhe apetece sem que tenha de prestar contas pelas enormidades que larga pela boca fora.

Se Carlos Queiroz tivesse impedido a realização de um  controlo antidopagem, aí sim, estaríamos perante um ato grave, incompatível com o desempenho do seu cargo. Agora por se ter irritado e agredido verbalmente um dos intocáveis da praça – com um palavreado horrível, valha a verdade – é sujeito a este processo kafkiano? E vem até o secretário de Estado, que passa meses e meses sem que se dê por ele e que nunca tem opiniões sobre nada, franzir o sobrolho e bancar a virgem ofendida?

A culpa de tudo isto é, uma vez mais e sempre, da falta de coragem que reina em Portugal. Para despedir Queiroz, por não ter chegado ao menos aos quartos-de-final, era preciso desvalorizar o que ele conseguiu: perder só um jogo em quatro e sofrer apenas um golo… com os campeões do Mundo. Pois, foi muito lindo, trabalhaste bem, mas queríamos melhor. Toma lá o cheque. Não, isso seria frontalidade a mais. É preferível este lavar e relavar de roupa suja, os testemunhos caricatos, as “indiretas”, a confirmação de que não merecemos ter cá o Mundial em 2018. Somos os palhaços da Europa, uns tontos empedernidos e sem emenda.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 12 agosto 2010

Partilhar

Os comentários estão fechados.