Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Canto direto: desvairados e sem remédio

Pronto, já corre a bola. Iniciou-se mais uma época para nos desafiar os sentidos. E se por um lado é bom ver regressar a velha emoção que faz a glória do futebol e nos renova o interesse pelo mais popular jogo do Mundo, por outro há que preparar o sistema nervoso para os casos, casinhos e casões que não deixarão de se apresentar ao serviço. 
Sopram ventos estranhos. O que se passou recentemente com Luisão diz bem da falta de equilíbrio que hoje grassa por aí. Numa trincheira, uns radicais: que é um verdadeiro capitão, que defendeu os companheiros de equipa, que não tocou no árbitro, que é um exemplo até para as criancinhas. Na barricada oposta, outros radicais: que agrediu o apitador, que cometeu um ato selvagem, que deve ser severamente punido – e se fosse também preso nada seria mais justo.
No meio desta fúria dramática, temos sorte. Da política portuguesa desapareceram praticamente todos os fundamentalismos que se seguiram à revolução de abril e os fanáticos religiosos não encontram entre nós, julgo eu, campo para uma semeadura que possa um dia resultar em colheita. E no desporto, não fossem alguns pirómanos, sempre prontos a apagar os fogos com gasolina, também não teríamos mais do que incidentes isolados, criados pelos marginais do costume, filhos do desemprego, da desestruturação das famílias, do regionalismo imbecil, da falta de apego à cultura das qualidades cívicas.
Talvez por isso, extremamos posições na palavra e proferimos – e escrevemos – os maiores insultos e assinamos por baixo de grandes barbaridades. Como se o adversário fosse o inimigo, como se a violência resolvesse alguma coisa. Um pouco de moderação e de equilíbrio faria falta? Sem dúvida, mas se calhar isso já não é possível numa sociedade perdida de valores e de referências. Conviver com o desvario é então o que nos resta.

Pronto, já corre a bola. Iniciou-se mais uma época para nos desafiar os sentidos. E se por um lado é bom ver regressar a velha emoção que faz a glória do futebol e nos renova o interesse pelo mais popular jogo do Mundo, por outro há que preparar o sistema nervoso para os casos, casinhos e casões que não deixarão de se apresentar ao serviço. 

Sopram ventos estranhos. O que se passou recentemente com Luisão diz bem da falta de equilíbrio que hoje grassa por aí. Numa trincheira, uns radicais: que é um verdadeiro capitão, que defendeu os companheiros de equipa, que não tocou no árbitro, que é um exemplo até para as criancinhas. Na barricada oposta, outros radicais: que agrediu o apitador, que cometeu um ato selvagem, que deve ser severamente punido – e se fosse também preso nada seria mais justo.

No meio desta fúria acéfala, temos sorte. Da política portuguesa desapareceram praticamente todos os fundamentalismos que se seguiram à revolução de abril e os fanáticos religiosos não encontram entre nós, julgo eu, campo para uma semeadura que possa um dia resultar em colheita. E no desporto, não fossem alguns pirómanos, sempre prontos a apagar os fogos com gasolina, também não teríamos mais do que incidentes isolados, criados pelos marginais do costume, filhos do desemprego, da desestruturação das famílias, do regionalismo imbecil, da falta de apego à cultura das qualidades cívicas.

Talvez por isso, extremamos posições na palavra e proferimos – e escrevemos – os maiores insultos e assinamos por baixo de grandes barbaridades. Como se o adversário fosse o inimigo, como se a violência resolvesse alguma coisa. Um pouco de moderação e de equilíbrio faria falta? Sem dúvida, mas se calhar isso já não é possível numa sociedade perdida de valores e de referências. Conviver com o desvario é então o que nos resta.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 18 agosto 2012