Assobiam para o ar e depois fazem queixinhas

Amanhã, teremos um dia perigoso, com nova manifestação de polícias, cujas organizações sindicais não garantem desta vez – o que lhes fica mal – o controlo de eventuais atos violentos. Ou seja, os agentes pagos pelo Estado para assegurarem a segurança dos cidadãos, tenham embora múltiplas razões de queixa, admitem transformar-se, eles próprios, em causadores de insegurança.

Para agravar a situação, no Ministério da Administração Interna, o principal interlocutor dos “revoltosos” enrola-se em considerações vagas e não consegue resolver sequer o drama da falta de equipamentos, viaturas incluídas. Espalhados pelo país, há centenas (!) de veículos inutilizados, alguns com pequenas avarias – uma espécie de visão europeia do Burundi.

Foi a esse ministério que Pedro Proença pediu uma audiência “urgente”, antes de se dizer “muito confiante” – como se a coisa lá fosse com voluntarismos – que a “final four” da Taça da Liga não fique marcada por incidentes. Fê-lo, aliás, na sequência do vergonhoso lançamento de tochas no dérbi de Alvalade e a exemplo do anfitrião do fogo de artifício, Frederico Varandas, também ele célere em ir queixar-se ao MAI da “escumalha” que o insulta.

Estamos, é claro, perante uma brincadeira. O problema da violência no futebol, sendo grave, é mais fácil de enfrentar que a violência na sociedade em geral. E porquê? Porque não se podendo contar com Sua Inexistência, o secretário do Desporto, nem com o atarantado ministro das polícias – que nem sabe para onde se virar – dispõe o próprio futebol de meios, que não utiliza, para combater os energúmenos que espalham o ódio e o terror nos estádios.

Primeiro mecanismo de controlo: os clubes. Sim, são eles e apenas eles os responsáveis pelos artefactos que entram nos recintos, não uma ou duas horas antes dos jogos, mas na noite anterior, de madrugada ou de manhã pela fresca, transportados pela sua gente e bem escondidos, com a óbvia cajuda do pessoal de serviço.

Mas os clubes respondem ainda pela brandura dos castigos que aprovaram e que fazem da Liga um mero veículo dos seus interesses. Começassem a ser punidos com jogos à porta fechada, interdição dos campos e multas severas sempre que as claques pisassem o risco e as “escumalhas” fizessem das suas, e logo veríamos como cada qual trataria de si, barrando a entrada aos “bad boys” e impedindo o acesso do material que o futebol dispensa. Mas não, preferem assobiar para o ar e fazer queixinhas!

O último parágrafo vai para José Couceiro, coordenador das seleções nacionais, que passa a integrar a direção da FPF. É mais um ato acertado da gestão de Fernando Gomes e que faz justiça à competência e seriedade de um homem tranquilo que merece trabalhar e ser feliz. Chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 20jan20

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