Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

As cabeças de cigarra ou a prioridade no online

Há dias, um amigo que trabalha num título diário, fora do universo Cofina, deu-me conta dos receios pelo futuro do seu jornal, cujas vendas não param de descer. Confrontou o diretor, que o tranquilizou: “O papel já não interessa, agora a prioridade é toda para o audiovisual!” Grande cabeça tem a cigarra.

Não estivesse já o meu amigo “queimado” com encerramentos de jornais e teria ficado satisfeitíssimo com a esperta aposta, como ficam tantas outras cabecinhas tontas. Mas não, torceu a orelha de formiga. Fez bem. Só existe uma certeza: o futuro da informação passará pelo online e pelo audiovisual. Falta é descobrir que caminhos trilhará esse futuro.

O problema é que vivemos no presente e boa parte (ou a maioria) das receitas vem, hoje, ainda das vendas em papel. Pode apostar-se tudo no online, o que não se pode é pagar 100 salários fixos com aquilo que o online gera, ou seja, encerrada a edição em papel, restarão na redação 20 jornalistas, não 80 ou 90. Falando mais claro: o diretor ilusionista continuará a dirigir a edição multiplataforma e o meu amigo irá para casa.

Por isso, estabelecer “prioridades” – que muitas vezes mais não significa do que varrer as próprias limitações para debaixo do tapete – e desvalorizar a receita que vem das bancas, não abre qualquer perspetiva de futuro. Com a realidade que temos, fazer jornais cada vez de pior qualidade dá-nos apenas outra certeza: haverá mais desemprego e menos jornalismo.