Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Arruaceiros nas suas sete quintas

A pandemia que virou o Mundo de pernas para o ar, modificou também o espetáculo do futebol como o conhecemos. Desapareceram – infelizmente não de vez – os grunhos das claques, que fomentavam a violência nos estádios, e fora deles, com insultos, ameaças, pancadaria, material pirotécnico perigoso, tráfico de droga e até uma morte aqui e além.

O circo do futebol não se adaptou à tranquilidade e ao silêncio, e aos poucos o pessoal de apoio às equipas ocupou as bancadas e ampliou o ruído como pôde. Mas não chegava, pelo que a peste se alargou aos bancos, com toda a gente em pé, reclamando da falta que foi ou da falta que não foi. Isso deixou alguns treinadores enervados. Afinal, os jogadores jogam, os dirigentes e os suplentes berram e protestam, e eles… nada? Somos para aqui uns badamecos ou quê?

Temendo talvez a ascensão de Rúben Amorim igualmente nesse particular – estando as coisas a correr bem em Alvalade, imagine-se se não estivessem! – Sérgio Conceição empunhou a bandeira da ira e, não fosse ele um veterano das expulsões (18!), tornou-se mais agressivo do que nunca. E como não pode fazer o arraial sozinho, puxa pelos confrades. Carlos Carvalhal foi convocado e houve festival do bom na Pedreira, no passado mês. Agora, foi a vez de Paulo Sérgio, um homem pacato, que não resistiu e participou na arruaça em Portimão. Depois do arraial da tarde, nos Açores, deu-se aquela belíssima interpretação do duo Sérgio & Sérgio, no Algarve, com tentativas de agressão e tudo…

É certo que na Liga mandam os clubes, que a última coisa que querem é mão pesada na disciplina e coimas elevadas, mas não é à FPF que cabe meter ordem na casa? Um treinador pode ser expulso três vezes, ameaçar e confrontar fisicamente um colega de profissão, manter-se exaltado por longos minutos ignorando as chamadas à razão de companheiros e adversários – sim porque o destempero, não havendo consequências, irá sempre em crescendo – e escapar com um joguinho de suspensão e uma multazita que, para aquilo que ele ganha, são “peanuts?

De que estarão à espera os senhores que mandam na balbúrdia para porem termo a este desgraçado exemplo para os mais jovens, a esta vergonha de proporções galopantes que vamos vendo nas áreas técnicas das equipas de futebol em Portugal? Sim, porque nas competições europeias parecem uns santinhos, sabem que se levantassem a crista comeriam pela medida grande. Aqui, como no Burundi ou na Somália, podem ser arruaceiros à vontadinha. E continuar nas suas sete quintas.

Um derradeiro parágrafo para a narração das transmissões de futebol, que há muito abusa da praga dos “golaços”. A seguir, veio a era saloia dos “meninos”, não há jogador de 20 anos que não seja “menino”… Agora, a moda são os “uas” – ua… penálti, ua… árbitro, ua… relvado, ua… qualquer coisa – sinal de que não se vai para casa analisar o trabalho para poder melhorá-lo. A humildade não é uma qualidade portuguesa.

Outra vez segunda-feira, Record, 22mar21