Apoio de Costa a Vieira, uma indignação que vale zero

Vai para aí um arraial por causa do apoio de António Costa à candidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica. Não valia a pena tanto barulho. A Comissão para a Ética da Assembleia da República – e chamo à pedra o exemplo que devia vir de cima – concluiu o primeiro ano de “trabalhos” sem se ter pronunciado sobre um único caso – esse é o país que temos! Rui Rio, um dos poucos com moral para falar, é que tem razão: é reprovável a intervenção no futebol de qualquer detentor de cargo público. Porque a par do primeiro-ministro e de Fernando Medina, vemos entre os 500 (!) nomes de fiéis de Vieira um deputado do CDS, outro do PSD – que por sinal é secretário da Mesa da AR – e um presidente de câmara do PCP. Trata-se de uma promiscuidade que se tornou hábito e tem décadas. Portanto, criem leis claras e dissuasoras, reformem o sistema ou peçam a intervenção divina, o que quiserem. Embora património nacional e ficando-nos bem, a indignação – sendo apenas mais uma – vale zero.

A propósito de Benfica: João Gabriel reapareceu, já quase nos tínhamos esquecido dele. Como é diferente a comunicação quando fala quem sabe como se faz…

Andava António Salvador de candeias às avessas com Francisco Varandas por causa dos 10 milhões de euros da cláusula de rescisão de Rúben Amorim, cujo pagamento o clube de Alvalade ia protelando, quando se anunciou que as partes se encontrariam para “negociar”. Confesso que desconfiei da boa vontade, pois conheço a fama de nariz empinado do presidente do Sp. Braga e porque não percebi bem o que haveria para dirimir se os dados estavam lançados: era largar a massa e ponto final. Mas é verdade que podia sempre existir algo de Pinto da Costa no líder leonino, uma oculta dureza para os negócios, algum coelho a sair da cartola de uma inteligência superior, enfim, um dom que Deus lhe tivesse dado sem nada comunicar à plebe.

Afinal, não. O fumo negro que saiu da reunião foi o que mandava não só liquidar a dívida como pagá-la com língua de palmo. Sim, além dos 10 milhões de euros iniciais, o devedor suportará também uma “penalização” de 1,2 milhões – que jurara não “reconhecer” quando tudo se resumia a jogos florais – mais os juros vencidos e os juros a vencer, o que eleva a continha para 12 milhões de euros. Mas Salvador foi mais longe na sua magnanimidade: se falharem uma das novas prestações ora acordadas, os leões verão agravado o balanço com outra “multa”, essa de 1,4 milhões de euros. E como se não bastasse, o emblema minhoto avançará com hipotecas sobre bens do Sporting de modo a garantir o seu dinheiro. Sejamos justos: o dr. Varandas é médico, é militar, é presidente e é ainda um negociador hábil, um autêntico fora de série nessa arte.

E por falar em fora de série. Cristiano Ronaldo terminou a época, a 7 de agosto, com dois golos ao Lyon – o segundo considerado o melhor da última Champions – e iniciou a corrente temporada, a 8 de setembro, com outros dois à Suécia, ambos magníficos. Em 2020, na lista dos marcadores da elite europeia, é Cristiano quem segue na frente, com 27 golos. Aos 35 anos e meio… Chapeau!

A  covid-19 tem feito com que o mundo do ténis gire mais depressa. O “Big Three” está praticamente desfeito. Aos 39 anos e há muito a recuperar de uma intervenção cirúrgica, Roger Federer terá muita dificuldade em voltar ao pódio, até porque o atual terceiro do ranking ATP, Dominic Thiem, de 27 anos, acaba de ganhar o US Open. Por outro lado, os meses também correm velozes para Rafa Nadal, de 34 anos, cujo futuro rendimento é uma incógnita – talvez regresse bem em Roma e consiga ganhar Roland Garros, embora esse seja agora um objetivo importantíssimo para Novak Djokovic, de 33 anos, após o duro revés que sofreu nos Estados Unidos. O tempo é, finalmente, da “Next Gen”, com Thiem, Medvedev, de 24 anos, e Zverev, de 23 – e Tsitsipas, de 22, entre outros – a jogarem a um nível cada vez mais alto e que não voltará para trás. Mas o primeiro grande torneio pós-pandemia poderá ter marcado igualmente o fim do “reinado” de Serena Williams, de quase 39 anos, a mais fantástica tenista que vi em ação – 39 títulos do Grand Slam – e que se ficou pelas meias-finais do Open norte-americano, logo aquele que lhe proporcionou o primeiro êxito individual, em 1999 (!), tinha ela 17 anos. A queda dos mitos não traz felicidade a ninguém, só aos falhados.

Outra vez segunda-feira, Record, 14set20 (versão integral)

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