Antena paranóica: uma mistura explosiva

Desapareceu Vítor Alves, um dos capitães de Abril mais moderados, sem que os portugueses tivessem parado para pensar no que lhe deviam ou lhe prestassem a homenagem de uns breves segundos de silêncio. Morreu em paz, acabou.

Verdadeiramente “emocionante” foi, sim, o quase simultâneo assassínio de Carlos Castro, com os seus contornos bárbaros e promíscuos, em contraste com o mundo de fantasia cor-de-rosa em que o cronista se movimentava.

O acto teve o sal suficiente para mobilizar a comunicação social, e as nossas televisões avançaram à boa maneira da casa, preocupadas em disparar primeiro e em avaliar depois se os seus alvos foram os devidos.

O mais espantoso, entre os erros evitáveis, terá sido a desfaçatez com que se transformou a terrível angústia da família do autor confesso do crime – mas sempre “alegado” e por vezes até “alegado suspeito”! – numa tacanha e gorada tentativa de fazer das virtudes sociais do jovem perturbado o verdadeiro cerne da questão.

De facto, não havia qualquer trabalho em Nova Iorque, nem drogas na comida, nem duas camas naquele quarto. E a relação entre executor e executado resumia-se à ambição do primeiro e à ilusão que o segundo lhe vendeu. A mistura foi explosiva e não permite reparação.

Antena paranóica, crónica publicada na edição impressa do Correio da Manhã de 15 janeiro 2011

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