Antena paranóica: Uma lua lá em baixo

Há 41 anos, vibrei quando o homem pisou pela primeira vez a Lua, graças à transmissão directa a que a RTP aderiu. Desde então, centenas de grandes eventos obrigaram-me a ficar milhares de horas “colado” ao televisor, tendo o meu “disco rígido” conservado apenas alguns, poucos.

E não recordo, em quatro décadas, “directo” que me tenha tocado tanto como o do salvamento dos 33 mineiros, no Chile, que acompanhei quase na íntegra, desde o resgate do primeiro, Florêncio Ávalos, ao do último, o chefe da resistência, o topógrafo Luis Urzúa. E lá andei, entre a CNN e a Sky, a BBC e a France 24, enquanto os arruinados canais portugueses nos davam o zero imenso.

Talvez daqui a uns anos os bravos da mina de San José tenham caído no esquecimento, ainda que Urzúa reúna características para se tornar numa lenda. Mas como da saga da chegada à Lua só Neil Armstrong permanece no nível imediato da memória, também um nome resistirá aqui à voragem do tempo: o do socorrista Manuel González, que fez a primeira descida ao desconhecido e exibiu o cartaz de “missão cumprida”, antes de fechar, sobre si próprio, a porta da Fénix da última viagem.

Abençoada televisão esta, a da tragédia, quando o seu hino é a vida.

Antena paranóica, publicado na edição impressa do Correio da Manhã de 16 outubro 2010

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