Antena paranóica: já não cheira a Lisboa

Para o Pingo Doce correu tudo
lindamente na terça-feira: facturação brutal, monos despachados, 20 minutos de
abertura de telejornais, imagem reforçada de “preocupação” com as dificuldades
dos portugueses.

Houve dumping? Bem, se os
produtos são marcados, para venda ao consumidor, pelo dobro do que é pago ao
fornecedor, então tudo se passou de acordo com a lei. E sinceramente tanto se
me dá, as autoridades que façam o seu trabalho.

O que me doeu foi o
espectáculo proporcionado não pelos pobres, que não têm dinheiro para avios
daqueles, mas pela imensa mole de remediados que gastou centenas de euros a
encher carrinhos, comprando o que precisava e o que não precisava, e assim
poupando pouco ou nada.

Gritos, empurrões e
pancadaria na luta pelos restos das prateleiras sobressaíram em imagens de
subdesenvolvimento e rendição que correram mundo. Só faltaram os saques, mas o
que vimos pode ter sido já o prólogo de uma tragédia grega anunciada.

Há demasiada gente tombada,
demasiadas toalhas atiradas ao chão. Cheira a Atenas, já não cheira a Lisboa.

Antena paranóica, crónica publicada na edição impressa do Correio da Manhã de 5 maio 2012

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