Antena paranóica: em defesa das telenovelas

Não sei se o leitor sabe quem é Jorge Silva Melo. Provavelmente, não. Mas faço uma apresentação simples: trata-se de um sólido actor e encenador, “compagnon de route” de Luís Miguel Cintra, e ligado, nas últimas três ou quatro décadas, a espectáculos teatrais da maior qualidade. Ele é, assim, o mais insuspeito dos telespectadores, até porque confessa ver pouca televisão.

Talvez por isso lhe sobre em lucidez o que lhe falta em tempo à frente do pequeno ecrã. Pude comprová-lo há dias quando o ouvi, surpreendentemente para o seu perfil intelectual, defender as telenovelas: como factor de divertimento – e escape para as agruras da vida e para telejornais que nos mostram meia hora só de desgraças – e como fonte de trabalho para técnicos e actores.

Aliás, só por preconceito se podem hoje desprezar as novelas – havendo, naturalmente, as melhores e as piores, e sendo legítimo não as apreciar, como é o meu caso – quando o verdadeiro telelixo nos entra em casa a um ritmo alucinante, uma visão dos infernos com o seu cortejo de gente desqualificada, apostada em conseguir através de uma suposta fama o que a inexistência de talento recusa e a falta de vontade de trabalhar desaconselha.

Isso sim, é um horror.

Antena paranóica, publicado na edição impressa do “Correio da Manhã” de 9 outubro 2010

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