Antena paranóica: afectos não são notícia

Uma onda de confusão percorre as nossas cabeças. A distinção do que é ou não notícia a destacar parece ser cada vez mais difícil. Voltámos aos tempos em que um idiota, que passasse do protagonismo ridículo num buzinão ao anúncio de uma jamais consumada candidatura à Presidência, tinha honras de telejornal.

Ainda esta semana vimos uns autarcas – que querem meter em tribunal os ministros responsáveis pelas portagens nas SCUT’s – serem levados a sério por câmaras e microfones ávidos, como se nada mais houvesse para relevar do que catástrofes naturais, assaltos, mortos e crise, de um lado, e parvoíces do outro, a aligeirar a desgraça.

Razão tinha o psicólogo Quintino Aires quando reclamava, no “Você na TV”, da TVI, por nunca os afectos serem destaque. Como se o melhor da vida e dos seres humanos não fosse a capacidade de contrariar os sentimentos transmitidos pelo ódio, pela indiferença, pela ausência ou pelo silêncio.

Dar tempo de antena a anormais dá audiências? Dá, mas se é essa a nossa nova vocação andamos enganados, já não somos jornalistas.

Antena paranóica, crónica publicada na edição impressa do Correio da Manhã de 3 dezembro 2011

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