André André: o filho do homem duro como a rocha

António André não era mau como as cobras, deixava esse papel ao Paulinho Santos, mas era duro como a rocha. Talvez por isso, juntou ao apelido André da família, o nome próprio André, em 1989, ao registar o filho em Vila do Conde, na esperança de que fosse rijo como o pai, mas com maior técnica futebolística e um pouco mais alto – o simplesmente André tinha só 1,71m e um centro de gravidade baixo, que o mantinha em pé quando os outros iam ao chão. E não é que o António conseguiu? O seu rapaz não é tão duro (seria impossível, penso eu) mas joga bem melhor à bola e cresceu mais três centímetros, um pequeno bónus arrancado às apertadas malhas da ditadura genética. E hoje André André vale o que vimos no clássico do Dragão: é um médio rotativo e tecnicista, rápido, completo, decisivo e maduro nos seus 26 anos – capaz também de “entrar a doer” no um para um, na tradição familiar –, alguém que poderá devolver à Seleção Nacional a magia perdida desde que Deco cedeu ao peso das botas e das lesões.IMG_1617

O Benfica quebrou fisicamente na segunda parte, logo disseram, ao cair do pano, as nossas sumidades da análise. É capaz de ser um facto, tendo em conta que os portistas regressaram a casa, após a desgastante partida de Kiev, na manhã de quinta-feira, enquanto os jogadores do Benfica puderam mergulhar em vale de lençóis ainda na noite de terça, cumprido o treino com os cazaques. E sendo assim, foram-se abaixo das canetas no segundo tempo do jogo do Dragão por uma questão de fair-play – e nada por preparação inadequada, evidentemente – para que ninguém os acusasse de beneficiar de dia e meio de descanso a mais. Foi bonito, pá.

Três dias de descanso chegaram para Aboubakar repetir no Porto a brutal exibição de Kiev. No primeiro quarto de hora do segundo tempo, começou por aproveitar um centro letal do André ao quadrado (quem havia de ser?), e um pontapé na atmosfera de Luisão, para cabecear ao poste uma bola que merecia o selo do golo. A seguir, lançado pelo duplo André (sempre ele!), bateu Jardel ao sprint e só não marcou porque há um imperador na baliza do Benfica. Com a sua habitual sagacidade, Lopetegui substitui-o e provocou um coro de assobios porque as plateias podem perceber pouco de futebol mas não gostam de ver deixar o campo jogadores com o perfil – de trabalho, entrega e capacidade – do internacional camaronês, de 23 anos, que promete reforçar de novo, e muito em breve, os cofres da SAD do FC Porto.

O que é evidente é que os portistas ganharam agora um desafio que perderam na época passada, o que significa que está a correr bem a estratégia de Pinto da Costa, que consiste não só em manter Lopetegui como em “enchê-lo” de jogadores tão bons e de tanta quantidade que sejam capazes de ser campeões faça o que fizer o treinador. A chegada de última hora dos dois internacionais mexicanos – que imediatamente ganharam a titularidade! – confirmou a determinação da política azul e branca. Corona é um diamante e Layún ainda há mês e meio foi a Goodison Park marcar um dos golos do empate do Watford no campo do Everton. Ou seja, não há cá formações nem meias formações: é comprar pelo seguro para obter resultados.

Quanto a Rui Vitória, gostei da frontalidade com que se referiu ao perdão do segundo cartão amarelo a Maxi, o que é verdade – sendo igualmente certo que foi injusto o primeiro que lhe exibiu Soares Dias –, a mesma frontalidade com que Vitória se esqueceu do segundo amarelo que o árbitro não mostrou a André Almeida. Mas o técnico encarnado esteve a nível superior na leitura do jogo e, quando a pressão do meio-campo portista se intensificou, fez entrar Talisca e Pizzi, jogadores exímios na contenção que se impunha para segurar o empate. Temos homem. André André, então, só pode agradecer ao mestre.

Contracrónica, Record, 21SET15

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