Ainda andamos por aí, Goucha

Se há coisa que um jornalista, que foi obrigado pelas circunstâncias a tocar vários instrumentos profissionais, não deve fazer é viajar demasiado pelo passado. Uns simples 20 anos atrás ousam revelar-nos prosas medonhas, em especial aquelas que somos capazes de jurar jamais ter escrito. Aconteceu-me isso agora, ao recuar à década de 90 para descobrir textos que assinei sobre Manuel Luís Goucha. Em outubro de 1993, quando se estreou o Momentos de Glória, uma caríssima aposta da TVI, não podia ter sido mais duro, ao publicar na revista Dona: “É um pastelão, tem aparato a mais e conteúdo a menos, sobra-lhe em dinheiro o que lhe falta em coração”. Não me arrependo.

Fiquei incomodado, dizer a verdade a um amigo só vale a pena se esse amigo estiver preparado para a ouvir. E quatro meses mais tarde, quando a TVI assumiu o fracasso, voltei a dedicar um texto a Goucha: “O comunicador que se afirmou encontrará muitos outros momentos bons, não de glória, que essa é efémera, mas de realização e felicidade”. E o certo é que o falhanço do Momentos constituiu também uma mudança na carreira do apresentador. Ainda deu uma entrevista ao jornalista Rui Gustavo, igualmente para a Dona, em que disse algo de hoje impensável: “A guerra das audiências não é minha, é da TVI, e não tenho de me preocupar com isso”. Foi o final da fase do deslumbramento – em 1994, num programa com Teresa Guilherme, na Renascença, ganhavam 200 contos cada um –, Goucha ia fazer 40 anos e passou a aplicar no seu trabalho princípios de contenção, autocrítica e até modéstia, que construíram aquilo em que depressa se transformou: num grande comunicador, sempre disponível para aprender e pronto para melhorar.

Invoco Deus por testemunha: não acredito em nada que os astros ou as cartas garantam que pode acontecer, mas encontro num perfil de Maya, publicado precisamente há 21 anos, na já citada revista, a melhor definicão do caráter de Manuel Luís Goucha: “Pode revelar-se egocêntrico e imodesto, em especial se estiver convencido que tem razão, mas dispõe de uma progressiva capacidade de exteriorizar os seus dons, sobretudo adquirida com a idade, e uma ambição sempre orientada por princípios morais e senso de honra”.

Creio que a frase diz tudo, embora não saiba se devia ter ido recuperá-la, pois no final do ano passado, noVocê na TV!, quando o convidado Luís Norton de Matos me identificou numa foto com ele e o Paulo Futre, o Goucha fez-me um elogio simpático mas disse: “O Alexandre Pais ainda anda por aí, escreve crónicas, nomeadamente na revista SÁBADO.” Ainda anda por aí?! Em dezembro, entras para o meu clube, o dos 60, e vais ver como elas mordem, Manuel Luís.

Observador, Sábado, 30JAN14. Tema de Sociedade da semana: uma entrevista de vida a Manuel Luís Goucha

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