Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Ainda há juízes em Berlim

Fui julgado pela segunda vez na vida, acusado do crime de abuso de liberdade de imprensa, um guarda-chuva amplo onde cabe tudo o que o Ministério Público quiser. Mesmo que em fase de inquérito se explicasse que o criminoso nada tinha a ver com o que foi publicado, por não se encontrar sequer de serviço, o caso seguiu para julgamento. E ainda que em juízo se provasse a referida ausência do local do crime, o MP continuou, até ao fim, a pedir a condenação. Incrível? Sim, mas só para quem não conhece a justiça portuguesa.

Tal como na ocasião anterior, fui absolvido. E não o devo a um acaso porque um acaso poderia ter feito com que fosse condenado – nada em Portugal, nem o que parece mais óbvio, é hoje garantido. Devo-o, sim, a um jovem juiz que, percebendo pouco do funcionamento de uma redacção, conseguiu distanciar-se para tentar compreender a gestão do caos e procurou julgar com isenção. Creio ser discutível a sentença que condenou alguns dos arguidos – eram vários porque o queixoso tem uma fonte a jorrar dinheiro – mas devo valorizar a clareza da que absolveu outros. Num país de mentirosos e aldrabões, um país onde tudo pode acontecer, haver juízes em Berlim é, na prática, a única defesa dos cidadãos contra os desmandos da própria justiça. Chapeau!

Observador, Sábado, 17JUL14