Ainda bem que a televisão não estava lá

Comecei a dar atenção aos jornais, na década de 50, graças a duas secções do “Diário Popular”: “O fotógrafo não estava lá” e “Veja as diferenças”. A primeira rubrica ilustrava, com um desenho, a notícia de um acidente ou de um crime, algo de bizarro nos dias de hoje, quando temos as televisões atentas a tudo o que mexe.

Mas não havia câmaras à porta do advogado, comentador da SIC e ex-deputado do PSD, José Eduardo Martins, quando às sete da manhã a polícia o prendeu, à frente dos filhos. A vítima deste kafkiano e censurável abuso de autoridade esteve detida durante cinco horas (!) porque tendo-lhe sido assaltada uma casa no Alentejo – pela enésima vez e sem que os gatunos sejam apanhados – não compareceu na esquadra da PSP para confirmar os termos da queixa apresentada à GNR, falta pela qual, aliás, foi multado.

Esta semana, a PJ voltou a entrar em ação em mais duas etapas da sua louvável investigação ao crime económico, confirmem-se ou não as suspeitas vindas a público. Mas não há imagem da justiça que resista à prepotência de quem manda prender, no espaço familiar, e de forma absurda e traumática, a própria vítima de um assalto. É caso para dizer: ainda bem que, desta vez, os repórteres não estavam lá.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 6FEV16

Partilhar

Os comentários estão fechados.