Ai se fosse no tempo da Maria Cachucha!

Não vou participar no concurso de tiro ao Lage. Elogiei-o aqui tantas vezes que me sinto apenas triste pela infeliz frase com que sugeriu haver jornalistas que querem pôr outro treinador no seu lugar. Ao técnico benfiquista, que criou uma nova e muito positiva relação com a comunicação social, fugiu-lhe o pé para o chinelo a partir da altura em que deixou de ser considerado o mago que faz os milagres acontecerem. É uma reação errada, mas compreensível face às circunstâncias, pelo que prefiro encará-la unicamente como um mau momento de Bruno Lage. Coisas da vida.

Aliás, mais que a acusação, que é ridícula – porque a existir qualquer complô não seriam os repórteres das conferências de imprensa os formadores de opinião contrária aos interesses de Lage – o que me espanta é que ele pense que Luís Filipe Vieira e aqueles de que o líder do Benfica se rodeia sejam tão fracos que possam querer substituir um treinador não em função da avaliação do seu desempenho, mas daquilo que digam escribas e palradores.

A verdade é que estes são os protagonistas do futebol que temos. Porque se os jornalistas dispusessem do poder que Bruno Lage lhes atribui – e ainda bem que não o têm – mal ouvissem a injúria sentir-se-iam ofendidos, pelo que se levantavam e saíam, deixando o orador a arengar sozinho. Estou a referir-me, claro, aos idos da Maria Cachucha, já que assobiar para o ar evita muita chatice em tempos que não são fáceis para ninguém.

Nem para um n.º 1 mundial, quanto mais! Novak Djokovic organizou um torneio de ténis em Belgrado, contrariando normas de segurança e recomendações dos epidemiologistas, acabando por testar positivo para a covid-19, a exemplo de outros tenistas e técnicos. A prova foi suspensa e violentas críticas surgiram de todos os lados, até pelo facto de o sérvio ser negacionista da ciência e contra a vacinação. Mas a contundência dos insultos resulta igualmente de uma entrevista recente de Srdjan Djokovic, pai de Nole, que acusou Roger Federer de ter ciúmes do filho, o que provocou a ira dos fãs do tenista helvético. O que estes episódios vêm confirmar é que por muitos torneios que ganhe – e ainda tem Federer e Nadal à sua frente – Djokovic nunca atingirá a dimensão humana dos seus dois maiores rivais. O que é pena, pois se falha como pessoa, como jogador é simplesmente extraordinário.

Outra nota a propósito de tempos difíceis. Não tendo o nome de Paulo Sousa surgido nas diversas listas de putativos sucessores de Bruno Lage, a sua assessoria resolveu vir a terreiro desmentir uma abordagem do Benfica. Ou seja, veio lembrar o que a ninguém lembraria. Uma esperteza recorrente.

Último parágrafo para Mathieu, que não merecia ter deixado de jogar de forma tão dramática, mas que manterá entre nós uma legião de admiradores – pela solidez da carreira, pela indiscutível capacidade técnica, pela qualidade profissional e pela visibilidade que as suas três épocas no Sporting trouxeram ao futebol português. Chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 29jun20

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