Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Aderi às manifs de 2 de março? Não, mas ninguém é de ferro

De uma maneira geral, os
jornalistas da televisão “aderiram” às manifestações do passado sábado, tal o
carinho utilizado na promoção do protesto e o posterior exagero na sua
divulgação. Como disse um pivô, foi um momento “particularmente emocionante”.
Péssimo jornalismo.

Lamento que me falte
autoridade moral para criticar este comportamento porque fiz, nos idos de 70,
papel de comissário político, e “esqueci-me” de que era apenas um jornalista
condicionado por um código deontológico. E falta-me também a vontade, tão farto
estou dos ditames da troika, uma contradição para quem, ainda há dias,
sublinhava aos jovens entusiastas envolvidos na Hora Record, da CM TV, que um
repórter não ri, não chora, não opina.

Essa escassez de vontade foi,
aliás, testada no próprio sábado, dia em que o Record Online fez títulos como
“Milhão e meio em protesto nas ruas” – a versão dos organizadores – ou
“Portugal na rua contra o Governo” – com “Portugal” em vez de “portugueses”.
Mandei mudar? Não. Péssimo jornalismo? É verdade, o problema é que ninguém é de
ferro.

Antena paranóica, publicado na edição impressa do Correio da Manhã de 9 março 2013