Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

A triste moda da cambada ululante

Antonio Conte parecia doido. O jogo em Udine aproximava-se do fim e o Inter não conseguia marcar, pelo que o treinador pulava e berrava, acabando por se exceder. Foi expulso e saiu a gritar: “És sempre tu, Maresca, sempre tu, até no VAR!”

O futebol é um palco de emoções e como tal não pode ter sangue de batráquio nos bancos. Não, a calma olímpica de Nuno Espírito Santo ou de Ancelotti é que não é normal. Reações tantas vezes desabridas, como as de Sérgio Conceição, Mourinho, Guardiola, Jorge Jesus, Lopetegui ou Klopp é que fazem parte do espetáculo, tal como os aplausos aos jogadores ou os assobios ao árbitro. Sempre assim foi, gostamos que seja, queremos o futebol dessa forma.

Daí que surjam como inexplicáveis as expulsões de Carlos Carvalhal e de Rúben Amorim, na final da Taça da Liga. Pelo que se viu, o pior que possam ter feito foi trocar uns palavrões e mandar-se àquela parte, atitudes feias mas que as transmissões televisivas nos permitem ver sistematicamente repetidas pelos próprios jogadores – dirigidas ao adversário ou mesmo ao apitador, que faz orelhas moucas. E estragou-se uma final por causa de palavreado ordinário? Não se resolvia o problema com o cartão amarelo? E na tribuna os senhores doutores e correlativos – todos em desrespeito pelo distanciamento social, lindo exemplo… – trataram-se como? Por vossa excelência?

Dito isto, há que sublinhar que a vergonha não são as reações dos treinadores, ainda que intempestivas, mas os abusos de alguns adjuntos, suplentes e assessores que se erguem dos bancos aos urros, em protesto ensaiado pelo que foi ou pelo que pretendem convencer-nos que aconteceu. É esse excesso grotesco que devia ser contido, com regras claras e punições severas – basta olhar para Inglaterra. Protagonistas, os treinadores que arranquem os cabelos. Figurantes, os moços da cambada ululante que calem as matracas. Enquanto isso não for feito, o regabofe continuará e os Tiagos Martins da vida aí estarão para fazer asneira.

Não esteve mal o Sp. Braga, em Leiria, mas a verdade é que deixou voar um pássaro que poderia constituir um marco no crescimento de uma equipa que perdeu, entretanto, para o Paços – de Pepa, grande trabalho! – o quinto lugar na liga e já tem o V. Guimarães à perna. Diga António Salvador o que disser, voltou a perder com um bando de putos liderado pelo mano mais velho. O resto…

O último parágrafo vai para um amigo que partiu perante a falta de memória da comunicação social: o antigo ciclista do Sporting, Américo Raposo, um “sprinter” extraordinário e quase imbatível em pista, vencedor de inúmeras etapas em linha e campeão nacional por diversas vezes. Após terminar a carreira em cima da bicicleta, dedicou-se à sua profissão de gravador-medalhista, em que era igualmente exímio. Foi ele e o filho que criaram, por exemplo, a medalha do “Record de Ouro” que desde 2003 se exibe nas vitrinas de largas dezenas de desportistas. À família enlutada, em especial a Américo Raposo Jr., aqui expresso o meu sentimento de profundo pesar.

Outra vez segunda-feira, Record, 25jan21