Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

A tripla condenação de Sócrates

O modo como se deu a detenção de José Sócrates constituiu uma primeira condenação. Mesmo que não venha sequer a ser acusado, da fama de criminoso já o ex-primeiro-ministro não se livra. As habituais fugas de informação e o julgamento na praça pública, iniciado logo na madrugada de sábado, de um homem que semeou ventos e suscitou ódios não deixam margem de manobra: politicamente, se estava ferido de morte, agora acabou.

Durante três dias, muitos dos que gostavam de Sócrates alimentaram ainda a esperança de que rebatesse os indícios que sobre ele recaem e que abandonasse o Campus de Justiça com o termo de identidade e residência com que lá entrara. Seria o princípio da tese do mal entendido que acabaria um dia com o arguido ilibado. Mas a realidade foi mais dura, o fumo parece  intenso e a prisão preventiva surgiu como uma terceira condenação. Se a detenção no aeroporto já o castigara, a pena agravou-se. Ficou preso, o malandro, dirão os biltres que espalharam aleluias nas redes sociais.

Terceira condenação? E a segunda? Essa verificou-se ao longo do dia de sábado, quando a todo o momento se esperava ver chegar aos domínios de Carlos Alexandre um dos monstros da advocacia que rodearam Sócrates enquanto liderou o Governo e em especial a figura que traz marca na ourela, a de Daniel Proença de Carvalho. Mas tudo viria a resumir-se ao estilo tout court do defensor da família.

A ausência de Proença de Carvalho, fosse qual fosse o motivo, deu-me logo a certeza de que vinha aí o pior: para Sócrates, para António Costa e para o País.

Observador, Sábado, 27NOV14