A senhora comendadora

Jornalistas da SÁBADO, Fernando Esteves, em Alter Ego, fernandoesteves.com, e Nuno Tiago Pinto,
em O Informador,
ntpinto.wordpress.com,
interpretaram já, com acutilância e talento, a indignação coletiva pela
entrevista-espetáculo de Judite de Sousa a um esbanjador pluritatuado que
derrete o seu dinheirinho como bem entende. Se tivesse menos uns anos e ainda
fervesse em pouca água, assinaria por baixo. Mas não aprecio que a crítica
justa a um mau momento da diretora adjunta da TVI se estenda a outros episódios
infelizes da sua vida, uns seguramente verdadeiros, muitos inventados pela
mesquinhez e pelo rancor. E irrita-me, em particular, a boleia que o caso deu
ao hate watching nacional, posto em
prática nas redes sociais com os habituais destemperos de invejosos, falhados e
zés-ninguém à procura de fama.

Falei uma única vez com Judite de Sousa, num almoço que há
dez anos reuniu os novos colunistas do Record
de então. Mas sinto por ela uma simpatia, diria repartida. Desde logo, pelo
seu sucesso jornalístico. Se já não é fácil a uma mulher ascender a cargos de
direção na comunicação social, menos fácil ainda a ascensão se torna para as
que optam por enfrentar os seus desafios profissionais a pulso e de pé – e
jamais deitadas.

Louvo depois a simplicidade da sua ligação a Fernando Seara,
que nunca procurou nem exibir nem meter numa redoma, com os prejuízos agora
resultantes da revelação de pormenores relacionados com a separação e aproveitados,
como uma luva, pela gentinha do Twitter e
do Facebook. Quanta frustração Judite
lavou nos últimos dias! Finalmente, admiro-lhe não a petulância mas a
humildade. Aquela com que se explicou e reconheceu o falhanço da sua conversa
com o jovem nababo, a mesma com que aceitou, em direto, a condenação de Marcelo Rebelo de Sousa. Penso noutras pequenas divas
da TV e não lhes descortino idêntica capacidade de autocrítica.


Glosadas têm sido também as fotos da jornalista em
biquíni, como se uma mulher de 52 anos estivesse obrigada ao uso do fato de
banho tradicional para esconder as marcas do tempo. Creio que Judite, depois de
ter saído na rifa, passará, nos meses mais próximos, a ser presa por ter cão e
por não ter. Eu, se não fossem as pretensões a jornalista sério, poria antes a tónica numa dúvida que me tira o sono: o que
leva alguém a trocar mensagens românticas
ou concupiscentes, digamos assim, com
o prof. Seara? Uma grande figura de intelectual, um bom autarca e uma pessoa de
bem, sem dúvida. Mas a minha costela feminina, pois que a tenho, dá-me uma certeza:
a mim, não me apanhava ele – fosse nuzinho ou vestido de ouro. Judite merecia
uma comenda.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 22 agosto 2013

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