A revolta de Mangala

Poucos acreditavam que Pinto da Costa segurasse Paulo Fonseca após a derrota com o Estoril, no Dragão, e menos seriam, depois de mais esse descalabro – igualmente exibicional – os crentes no êxito portista na Alemanha. Mas quem tem jogadores de qualidade pode não ter equipa, como vem sucedendo demasiadas vezes com o FC Porto, mas dispõe sempre de capacidade para tirar um coelho da cartola. E foi o que aconteceu em Frankfurt, ainda por cima graças a um protagonista improvável: Mangala. Improvável, digo bem.

Desejado por meia Europa dos potentados do futebol – a fazer fé no que se tem escrito – o central francês chegou à partida da segunda mão com o Eintracht carregando o peso de duas desgraças consecutivas: a deficiente intervenção num dos lances que permitiu aos alemães alcançarem o empate no Porto e o “atropelo” a Evandro que levou à marcação da grande penalidade que deu a vitória estorilista. Muito azar para um homem só.

Mas talvez essa infelicidade repetida tenha sido reciclada em incentivo pela força mental de Mangala, já que sem ela não teria sido possível ao internacional gaulês rubricar a exibição, feita de talento, eficácia e raiva, que transformou o 2-0 – que constituiria o fim da linha europeia para o FC Porto – no empate que levaria a eliminatória para prolongamento.

Foi essa revolta, assente em dois golos magníficos, que remoçou a equipa azul e branca, o toque a reunir que fez esquecer tristezas, críticas e assobios. De novo em desvantagem, os dragões já não eram, então, o pelotão desmoralizado e apático que entregara as armas e recolhera à caserna. E foram outros dois “heróis” improváveis – porque já pouco se dava por eles – que dispararam o tiro fatal: Licá no remate que Trapp não segurou e Ghilas no golpe de misericórdia que garantiu o apuramento.

Como escreveu no Twitter um dos melhores jornalistas de Record: “Estúpido como sou, das poucas coisas que aprendi ao longo dos anos nisto é que nunca se deve matar o FC Porto antes do tempo”.

Ora aí está, desconfia-se do futebol como da vida: muitas vezes o que parece certo, simplesmente não acontece.

Canto direto, Record, 1MAR14

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