Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

A revolta de Frederico Varandas e o seu verdadeiro eu

Com a carreira profissional que tem, de médico e militar, Frederico Varandas só pode ser uma pessoa inteligente. E até aquilo que fará pior, o exercício da sua atividade de gestor, já terá tido piores dias: nada como a prática para construir o homem.

Acontece, entrando um pouco na onda da filosofia barata a que todos os leigos têm acesso, que nós somos o que vemos quando nos olhamos ao espelho e não o que mostramos aos outros. Daí que o lamentável papel que o presidente leonino interpretou – uma vez mais – agora no final da partida de Famalicão, tenha necessariamente de fazer parte não do que ele é, mas da sua representação social. Convém-lhe, isso sim, dar de si aquela imagem de revolta que ele julga constituir uma afirmação da liderança que meio Sporting não lhe reconhece.

Faz mal. Porque embora pareça ser porta voz de um sentimento coletivo de indignação por mais uma desgraçada arbitragem, esbate, de facto, a grandeza de um emblema que é um baluarte do desporto em Portugal e que devia estar acima de acidentes de percurso a que todos estão sujeitos e que só os fracos não ultrapassam. Com essas lamúrias, exageradas e recorrentes, agravadas por uma falta natural de empatia no discurso, Frederico Varandas surge como líder de um clube de perseguidos, injustiçados e choramingas, que só não voa mais alto porque não o deixam. E isso não é verdade.

Falando de factos: o Sporting foi prejudicado em Famalicão? Foi. Mas não pela anulação do golo de Coates, que desviou claramente os braços do guarda-redes adversário – que se aprestava para recolher a bola – antes pela não marcação de penálti a seu favor quando João Mário foi atirado para o quintal do vizinho ou pelo estúpido segundo amarelo e expulsão de Pote após um lance banal de bola dividida. E por algumas dualidades de critério que evidenciaram, sem grande margem para equívocos, ou um azar dos diabos ou a profunda incompetência de Luís Godinho.

Nada disso justifica a confusão terceiromundista nos túneis – que tudo indica será esquecida sem consequências, à boa maneira portuguesa – e menos ainda o ar de desvalido com que o dr. Varandas se apresentou perante as câmaras para se atirar ao árbitro. O mesmo dr. Varandas que ninguém viu, terminado um confronto anterior, reconhecer que o Sporting havia sido beneficiado com a validação, pelo apitador e pelo VAR, de um golo decisivo para a vitória leonina e que pareceu igualmente ilegal. Moral da história: faz dos outros parvos e depois tem a pretensão de querer ser levado a sério. Já em casa, que terá dito ao seu verdadeiro eu?

Um último parágrafo dedicado, com emoção e carinho, a Teresa Agostinho, filha do ex-diretor de Record, Artur Agostinho, agora de luto pela morte da mãe, viúva do grande comunicador desaparecido em 2011 e com quem tive o privilégio de privar. O sentido abraço que lhe deixo aqui estendo-o ainda a Tony Carreira e à família, no sábado submetidos à mais cruel das provações. Desgraçado ano este.

Outra vez segunda-feira, Record, 7dez20