A piedosa intenção de António Costa de abrir a porta ao futebol

Percebe-se a decisão de princípio de António Costa de tentar acabar a primeira liga, a partir do final do mês. Os registos da pandemia entre nós não se comparam aos de Espanha e o país vizinho aponta também para a conclusão da temporada. Tal como se fará na Alemanha, onde os dados do contágio são bem mais “benevolentes” do que os absolutamente trágicos de França, Bélgica ou Holanda, países que deram a época por terminada. Afinal, há duas visões opostas no futebol europeu – em Inglaterra e em Itália hesita-se – e Portugal prefere a mais otimista, tendo em conta a importância da modalidade na economia e a pressão exercida pelos clubes, que ganhou outro fôlego e outra capacidade de procurar uma saída realista desde que Fernando Gomes se chegou à frente.

Mas a opção de António Costa, a quem ninguém perdoará um passo em falso, é ainda mais razoável se considerarmos que se trata apenas de uma intenção, de um entreabrir de porta, e que tudo dependerá da aprovação do protocolo sanitário e da evolução da epidemia nos primeiros 15 dias do perigoso desconfinamento que hoje começou. Depois, haverá igualmente a dificuldade de fiscalizar o cumprimento das regras que se vierem a estabelecer – e quem o fará? Calcule-se o que seria se o escrutínio ficasse a cargo de funcionários dos clubes…

Indo ao encontro do entendimento do Comité Médico da FIFA, que se manifestou contra o reinício das provas, Cesc Fàbregas desenvolveu, em entrevista recente, um raciocínio linear: “Penso que não se vai jogar em lugar algum porque se numa cidade desportiva já somos 60, um Real Madrid ou um Barça terão 150 pessoas, mais as viagens e os treinos. É impossível que não exista um infetado. Depois, teremos de voltar a parar. Se houver um jogador contagiado, todos os do adversário podem estar também infetados e terão de fazer quarentena. Acho impossível que se volte a jogar esta temporada”. Terá ou não razão o internacional espanhol? Dentro de poucas semanas, veremos se a bola rola. Ou se já rolou e empancou tudo de vez.

O último parágrafo é hoje dedicado a dois protagonistas. O primeiro, Nuno Alpiarça, era um herói da entrega e da generosidade, parceiro discreto dos êxitos do nosso campeão paralímpico Carlos Lopes. Atleta-guia e treinador, morreu aos 53 anos devido a um ataque cardíaco e à “eternidade” – duas horas! – que decorreu até ser transportado ao hospital, podendo considerar-se mais uma vítima indireta do coronavírus. O segundo protagonista é Miguel Albuquerque, líder do Governo Regional da Madeira, que andou sempre à frente da Covid-19 e se antecipou mesmo, na tomada de algumas medidas, ao Executivo da República, o que faz com que a sua região seja não só a única em Portugal a não registar mortos pela epidemia, como a somar dias consecutivos sem novos casos positivos. Pertencesse Albuquerque ao “beautiful system” continental e só lhe cantariam hosanas. Assim, tem de ser outro periférico a sublinhar-lhe o mérito. Duplo chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 4mai20

 

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