A montra da Luz

Nem todas as clínicas privadas se podem dar ao luxo de ter um paciente como Eusébio da Silva Ferreira, a lenda, que completa 70 anos dentro de um mês. Mas o Hospital da Luz beneficiou do facto logo na altura em que abriu as portas, em 2007, e tratou tão bem o King, nessa altura, que voltou a tê-lo agora de volta, para uma quadra natalícia debaixo dos holofotes da comunicação social, uma verdadeira bênção em tempos de apertada concorrência.

Também já utilizei as urgências daquele hospital, mas não tive, em duas ocasiões, a sorte de ver correspondida, na área do atendimento clínico, a qualidade das instalações e a simpatia do pessoal – médicos incluídos.

A pneumonia de Eusébio, que naturalmente preocupa os portugueses, teve já a enorme vantagem de nos deixar ver, em conferências de imprensa – um pouco forçadas, valha a verdade – uma bateria de ilustres nomes da nossa medicina, a enfrentar gloriosamente as câmaras. Eles dariam a qualquer mortal a garantia absoluta dos mais excelsos cuidados, em especial se a essa exibição na feira das vaidades se juntasse depois uma militância constante na linha da frente. Sei, por experiência própria, que não é bem assim.

O meu pai esteve, em 2008, quase uma semana internado no último piso do Hospital da Luz, e acabei por ter de o tirar de lá, pois em cada dia havia médicos diferentes, sempre novatos, a dar respostas evasivas e desconexas às questões que lhes colocávamos, e não vi, em seis dias, qualquer sénior que os enquadrasse e pudesse suprir tão chocante inexperiência.

Pode ser que as circunstâncias tenham mudado entretanto e que o hotel de cinco estrelas da Luz seja hoje igualmente um hospital de atendimento mais competente, e mais humano e personalizado. Ao nível do que os senhores doutores que estão agora na montra são capazes – se quiserem e se arranjarem tempo – de fazer lá dentro.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 24 dezembro 2011

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