Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

A minha verdade, por Teresa Pais

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

A minha verdade

As notícias da morte da Adelaide e da minha recidiva chegaram juntas, com a distância de pouco minutos. A nova medicação que me fez sonhar com um futuro melhor/maior começou no dia em que me despedi, pela última vez, da Fátima. Agora, sonho com as duas. Ontem, andaram à minha roda, chamaram por mim e disseram-me que estavam lá para me receber, que não tivesse medo… 
Vou gostar de revê-las e de poder reparar muito do que ficou por dizer entre nós. Não tenho medo do outro lado, aquele em que elas estão e, a fazer fé no meu sonho, parecem bem… 
Só tenho medo deste mundo que deixo e de como partirei. 
Do que terei de sofrer e fazer sofrer até lá, da dor e angústia que deixarei numa criança e quais as consequências que isso virá a ter na sua vida… As mães têm filhos para amá-los e cuidar deles, não para deixá-los quando ainda tudo está a começar nas suas vidas… Dói que se farta, dói muito mais do que os ossos e o resto que ainda venha a querer magoar-me. Nunca nada poderá doer mais do que isto, seja lá o que possa vir a ser. (Os mais crescidos terão de aguentar bravamente…)
O Júnior acha que o que eu sinto é um exagero, mas na minha verdade, não é. Há dois meses tirei uma mama (não sei porquê mas as pessoas parecem achar que isso não custa nada) e há um mês e meio que ando doente. Primeiro, com os efeitos secundários dos comprimidos, depois com uma constipação brutal que ainda não consegui curar totalmente (o ouvido direito “foi-se”), uma estomatite aftosa de alto gabarito que começa agora a dissipar-se e que me proporcionou vários dias de incapacidade de engolir e comer sem dor e, ainda, um desarranjo intestinal com vários princípios e fins (foi ponto alto nos primeiros efeitos secundários do medicamento), até esta última vez, que ainda não terminou e que, podemos dizê-lo, atirou comigo ao chão, obrigando-me a dias e horas de náuseas, dores, sanita, noites sem dormir… 
Exagero, diz a minha verdade, que não é parva, é uma pessoa ser obrigada a passar por tudo isto pelas razões por eu passo, ou seja, para sobreviver. 
E a minha cabeça entra em alerta vermelho e coloca amiúde a questão: será isto o princípio do fim?
À minha verdade, parece-lhe que sim, que está mais ou menos na hora. Diz-me ela que a maior parte das pessoas que encontram um cancro no estado de progressão em que eu dei com o meu, não andam por cá três anos depois felizes e contentes. Lembra-me ainda que, amanhã, na consulta, as análises, que já estão feitas, podem revelar uma de duas coisas: ou que o comprimido não está a fazer efeito; ou que até está mas o meu organismo não o tolera e qualquer infecção passa a ser um risco de vida. Ou as duas, sei lá.
A minha verdade tem-me infernizado a vida com pareceres e dúvidas. E tem-me deixado triste e amargurada. A minha verdade não acredita em boas notícias amanhã. Era bem feito que se enganasse, para o Júnior lhe dizer “eu não te disse?”.

Beijos,
T.
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