A lembrança de Constança

Estou seguro que não faltará quem deteste a ministra Constança Urbano de Sousa – a que um pivô de telejornal chamou há dias Constança Cunha e Sá – pelo facto de ser mulher ou, nos casos de maior tolerância, por ser uma mulher a tutelar a complexa pasta da Administração Interna, que tem sob a sua alçada instituições com tarefas, soit-disant, próprias para homens.

Goste-se dela ou não, a verdade é que a ministra foi, como outros, trucidada pela imparável brutalidade de uma onda de incêndios como quase não há memória, e sentiu-se pressionada a agir. E não dispondo do único dom que a salvaria, o de mandar chover, fez aquilo em que somos bons: dizer qualquer coisa.

Mas os discursos estavam todos gastos e o primeiro-ministro havia chamado a si a resposta às inevitáveis críticas de quem tudo perdeu nas chamas ou de quem se apressou a sacudir a água do capote. Lembrou-se então Constança de acenar com uma peregrina medida: a de obrigar os incendiários – bêbados, doentes mentais ou indigentes, e por certo inimputáveis – a pagar os prejuízos.

Creio que a responsabilidade cível dos criminosos condenados já existe, mas perante a dimensão das perdas, o que adiantará, à tragédia, uma reparação de trocados? Que raio de lembrança, Constança…

Observador, Sábado, 25AGO16

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