A frase temerária de António Costa

Em semana de conversas televisivas, António Costa não se limitou a preparar um recomeço condicionado da vida de todos os dias. E foi estranhamente temerário ao proferir na última entrevista – a propósito do provável retorno da austeridade – uma frase que lhe pode sair cara: “Essa seria uma estratégia profundamente errada na atual circunstância”.

Não creio que com a referência à “atual circunstância” o primeiro-ministro tenha procurado precaver-se, para recorrer mais tarde ao argumento que a “circunstância” mudou. Não, Costa está mesmo convencido que vai evitar um novo apertar de cinto. Mas joga muito da credibilidade ganha com a gestão da crise ao comprometer-se, perante o país, com algo em que só acreditam os patetas que acham ser possível viver com o dinheiro dos outros: que a maior recessão mundial desde a II Grande Guerra não se refletirá no bolso das pessoas.

Passados os meses da pandemia, o défice será incomportável e os senhores do papel aparecerão para emprestar exigindo garantias. E aí não haverá explicações que sirvam para cortar salários e pensões, nem “circunstância” que valha ao aumento de impostos. As palavras de António Costa ficaram cravadas a fogo na memória dos portugueses.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 18abr20

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