Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

A família Gomes e a Ala dos Desprezados

Não, não vou por aí. Sei que a tentação é grande. Desde o “Don’t cry for me, Argentina”, frase do epitáfio de Evita Perón, que virou canção (Tim Rice/Andrew Lloyd Webber), até às primeiras e benignas invasões argentinas do futebol português, nas décadas de 40 e 50, passando pelo inevitável tango e pelos desvarios de Cristina Kirchner, na Casa Rosada, não faltavam temas recorrentes e lugares comuns para abordar nesta contracrónica. Prefiro citar o “Cântico negro”, de Régio: “Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos…” Digam-me que não é bem.

Só 40 mil saloios. “Pour épater les bourgeois” é a frase, atribuída a Baudelaire, que traduzida livremente do francês significa “chocar os burgueses”, mas que é usualmente utilizada com outro significado, com o verbo “épater” a querer dizer “impressionar”. Recordei a expressão durante o primeiro tempo do desinteressante jogo de Old Trafford, organizado “pour épater les bourgeois”, para impressionar os burgueses – ou seja, os saloios que se deixassem impressionar pelo cartaz chamativo – e assim arrebanhar umas massas. Não foram longe os investidores, já que com 5 milhões de euros de despesas e 40 mil espectadores nas bancadas, que levam 76 mil, não ganharam para o jantar. É capaz de não lhes fazer grande mossa.

Vem aí a Europa. E todavia estava na cara. Já basta aos milionários da bola, portugueses e argentinos, terem de dar o litro nas partidas oficiais, o que nem sempre acontece, quanto mais matarem-se com correrias doidas em joguinhos a feijões. No fim de semana, recomeça a sua verdadeira luta, nos clubes, e dentro de oito dias regressa a sobrecarga europeia, por isso, calma aí, vamos levar a coisa em ritmo de treino. E assim fizeram suas excelências.

A família Gomes. A primeira parte foi horrível, com Portugal a ser dominado de modo algo avassalador, até porque jogou só com oito, uma vez que Tiago Gomes, André Gomes e Danny Gomes – perdão, ia embalado, é verdade… olha, mas não é que o Danny também é Gomes? – deambulavam mais pelo palco da Lua do que pelo dos sonhos.

Como os malucos. Iniciado o segundo tempo, sem Messi e CR7, deu-me vontade de rir ao ver o Nani agarrado à perna, na esperança de que Fernando Santos lhe desse o estatuto que um dia perseguiu, o de ser o “novo” Cristiano Ronaldo, e o mandasse também tomar banho. Nada disso, o Real Madrid é o Real Madrid e o Sporting é o Sporting. Pois se mesmo o Tiago, que perdeu a titularidade no Atlético de Madrid por se ter lesionado, e ainda não voltou a jogar pelos “colchoneros”, andou ali a arrastar-se quase até ao fim, e tem jogo no sábado, era o Nani que ia sair? Claro que estou a escrever isto porque já não sou diretor do Record e passei a ser como os malucos, que dizem ou escrevem o que lhes vem à cabeça – senão tinha feito “delete” a esta parte, juro. Sim, concordo, esse tipo de raciocínios doentios só existem nas nossas perversas cabeças.

O brio dos desprezados. O melhor de tudo chegou no finalzinho, com o golo de brio da Ala dos Desprezados: remate de Adrien, tabela em Eder, cruzamento de Quaresma e cabeçada em voo de Raphael para a vitória. Ao minuto 91! Confesso: gosto de surpresas felizes e – vá lá um jargão a fechar – de heróis improváveis.

Contracrónica, Record, 19NOV14