A derrota do mérito

A sociedade portuguesa vive enredada nos seus pequenos ódios e sente cada vez mais dificuldade em reconhecer qualidades e punir deméritos. Aplaude-se com maior entusiasmo uma criatura que tenha passado pela televisão – em especial se lá fez tristes figuras – do que profissionais qualificados que dedicaram as suas vidas a servir o público e o País.

Há dias, Tony Ramos – soberbo na pele de Getúlio Vargas, no filme Getúlio, de João Jardim, em exibição entre nós – viu a teoricamente pouco exigente plateia de O Preço Certo, da RTP, erguer-se como uma mola em genuína ovação ao seu talento e à sua empatia.

Foi um fogacho, um momento raro, talvez só possível porque o comediante brasileiro anda há 30 e tal anos, de casa em casa, e tornou-se parte da família de muitos portugueses. Os actores vão sendo ainda, como os artistas de uma maneira geral, das poucas classes profissionais que os cidadãos respeitam e aplaudem quase sem reservas. De resto, políticos e banqueiros, juízes e professores, padres e jornalistas, médicos e polícias são avaliados pela rama, incensados ou odiados ao sabor das emoções do momento, dos interesses mesquinhos, das paixões exacerbadas ou dos fanatismos doentios,

Qualquer cena de sexo numa casa dos segredos parece valer mais que o mérito, a probidade e o trabalho. Chegámos a isto, é trágico.

Observador, Sábado, 30OUT14

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