A dança de risco do treinador do Sporting

A época 2013/14 confirmou, talvez como nenhuma outra, a qualidade dos treinadores portugueses. Sou particularmente sensível ao fenómeno porque venho de um tempo em que todas as equipas da divisão principal eram treinadas por estrangeiros e quando se verificava a exceção de uma liderança caseira os jornais faziam uma festa. E olhava-se para esse homem estranho com o espanto com que se veria aparecer um extraterrestre.

Nesta temporada, não só os exemplos nacionais de ocasional insucesso – Paulo Fonseca, Jesualdo, Costinha, José Mota, Henrique Calisto, Marco Paulo ou Abel Xavier – foram largamente ultrapassados pelos que tiveram êxito – Jorge Jesus, Leonardo Jardim, Marco Silva, Manuel Machado, José Couceiro, Pedro Martins, Sérgio Conceição, Nuno Espírito Santo, Pedro Emanuel ou Lito Vidigal (muitos deles a caminho de novos desafios) – como a única turma a descer de divisão, o Olhanense, era ela própria a exceção à nova ordem estabelecida, já que o seu derradeiro comando esteve entregue a um técnico italiano, o infeliz Galderisi, incapaz de gerir, ainda que português falasse, aquela anárquica sociedade das nações.

Decidido a contrariar os ventos da moda, o FC Porto apostou num catalão*, Julen Lopetegui, para a próxima campanha, depois de nos últimos sete anos ter apostado em cinco profissionais nascidos em Portugal – três dos quais foram campeões. A escolha é de risco e o futuro dirá se o antigo guarda-redes repete o êxito de Co Adriaanse ou imita as desilusões Del Neri e Victor Fernandez.

Mais arriscada será talvez a provável “troca” de Leonardo Jardim por Marco Silva, no Sporting, pese a inegável qualidade dos dois técnicos… portugueses. Por um lado, só a alta qualificação e o prestígio alcançado, de uma forma geral, pelos nossos treinadores, conseguem explicar que o ambicioso Mónaco venha buscar Jardim, que por muito bom que seja pouco ganhou até agora. Por outro, eu se fosse a Bruno de Carvalho resistia a receber os três milhões pela rescisão, pois a partida do madeirense poderá fazer atrasar os leões na maratona da sua recuperação. É verdade que Marco Silva tem provas dadas, uma personalidade extraordinária e uma maturidade rara para a sua idade. É, por isso, uma excelente opção. Mas o Sporting ter de recomeçar mais uma vez a vida é um pouco assustador.

*O novo técnico do FC Porto é basco e não catalão, como escrevi. As minhas desculpas.

Canto direto, Record, 17MAI14

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