A crónica de Joaquim Letria sobre a “morte anunciada” do 24horas

Doença prolongada

Breve telefonema do director deste defunto jornal encomendou-me duas crónicas rápidas com o fatal destino de serem a penúltima e a última. Ou seja, devo participar no velório de hoje e voltar amanhã para a incineração ou enterro, já que os parentes do extinto não me revelaram a modalidade do funeral.

Soube da notícia pelos jornais que falaram de “morte anunciada”. Eu diria antes pressentida, porque ainda ontem não havia participação. Mas quando até as prostitutas preferem publicar os seus sugestivos anúncios classificados em certos jornais de referência, fica tudo dito e devia dar que pensar. Há muito tempo. Nos últimos anos não vi nos jornais, rádios e televisões senhores que mandassem guardar as pratas. Por isso, ninguém se deve lamentar hoje por o faqueiro estar desfalcado, nem quando descobrirem que o serviço inglês de chá também desapareceu.

Há muito mais de um ano que já tiravam as medidas deste defunto, acabando por lhe vestir uma mortalha que não era de jornal nem de revista.

Não foi da crise, nem de morte súbita, que este jornal morreu. O 24 horas sucumbe a doença prolongada. Daquelas que não perdoam.

25.ª hora, crónica publicada na edição do “24horas” de 28 junho 2010, penúltimo dia da publicação do diário

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