Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

A constituição do Grupo B no país da lamúria

O último Europeu de Sub-19, que nos fugiu sem que tenhamos perdido um único jogo, serviu como uma luva à tese da infelicidade eterna, alimentada pelos membros da Grande Ordem do Choradinho Lusitano. Condenados a vitórias morais, tudo só pode correr-nos mal.

Fernando Santos exibe, como poucos conseguiriam, a “fácies” desse fado lusitano, na sua testa franzida, símbolo da desconfiança permanente. Com o merecido respeito, daria um adequado grão-mestre da referida ordem, como ainda no sábado demonstrou ao reagir, com ar pesaroso, ao presente divino que foi, para a seleção portuguesa, a constituição do Grupo B de qualificação para o Mundial de 2018. Aliás, olha-se para o resultado do sorteio e não se acredita – somos até levados a admitir a possibilidade de estarmos a sonhar acordados.

Sabendo que a Espanha terá de se haver com a Itália; que a Croácia irá esbarrar em Turquia e Ucrânia; que à Alemanha saiu a República Checa e à Bélgica a Grécia; que Polónia, Dinamarca e Roménia ficaram no mesmo grupo; e, especialmente, que entre França, Holanda e Suécia só uma se qualificará de forma automática, vestirmos a pele dos coitadinhos porque nos calhou a “problemática” Suíça – além de uma Hungria que maravilhou o Mundo há mais de 60 anos, no tempo de Puskas, Kocsis e Czibor, e hoje não passa de uma equipa mediana – é algo de ridículo que agrada apenas aos profetas da desgraça e da lamúria.

Já se sabe que no futebol só se ganha depois de se provar em campo que somos melhores, e que até Andorra e a nossa atávica mania de dormir na forma podem deixar-nos a fazer contas. Mas um pouco de otimismo perante esta dádiva ficava-nos bem. Já basta a política para nos pôr a chorar.

Canto direto, Record, 27JUL15