A cena macaca foi de Lotopegui

Em mais de 12 anos de crónicas neste jornal, enganei-me muitas vezes e, sempre que achei que valia a pena, emendei a mão. Tenho, por isso, que voltar ao meu “Canto direto” de há duas semanas, em que elogiei, acredito que merecidamente, Julen Lotopegui – sim, Lotopegui, agora também me apetece trocar-lhe o nome.

Não quero alterar o sentido desse texto, escrevi, aliás, que o manteria mesmo que as coisas corressem mal em Munique, como infelizmente correram. Mas louvei o “positivismo do discurso” do treinador, que o próprio tem tornado negativo desde então, de uma forma despropositada, ressabiada e até desrespeitosa, que veio denunciar o verdadeiro caráter de um homem que admiti ter outra categoria.

A minha convicção sofreu ainda o golpe fatal quando Lopetegui interpretou aquela cena macaca com Jorge Jesus, cena que assumiu, aos meus olhos, uma tripla deceção: por o ter julgado incapaz de se “passar” daquela maneira, por revelar mau perder – empatando de facto, falhou no objetivo que era a vitória – e, o pior de tudo, por ter aproveitado o momento da despedida do adversário para o agredir verbalmente. Por muitas razões que tivesse, foi feio. Terminada a refrega, o que fica à mostra é a grandeza dos contendores: dos que ganharam, pela forma como tratam os vencidos; dos derrotados, pelo modo como encaram o insucesso. E aí, Jorge Jesus voltou a marcar pontos e Lopetegui perdeu os que lhe restavam.

Creio ter visto em Antero Henrique o rosto da desilusão quando tentava, discretamente, afastar o treinador portista de Jesus. E sabendo embora como Pinto da Costa defende a sua gente, sou capaz de acertar se disser que Lopetegui acabou, na Luz, de cavar a própria sepultura. Fica por um fio.

Canto direto, Record, 4MAI15

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