A ceifeira da morte

Esta semana, no Twitter, um pai contava que, na escola da filha, uma comissão de mães se “revoltou” com o facto de ser servida pizza ao almoço às crianças… uma vez por mês! Vivemos um tempo em que parece que descobrimos, de repente, os nossos direitos de cidadania, temendo não sermos suficientemente aguerridos na sua expressão. Daí que até uma pizza numa cantina viva hoje à boleia de factos graves, como os cães famintos numa herdade ou os insultos racistas a um futebolista. Vale tudo.

Levo quase sete décadas a ver futebol e desde sempre ouvi as maiores alarvidades, os palavrões mais escabrosos e as injúrias mais soezes a desabar sobre alvos humanos indefesos, sem que nunca alguém se insurgisse contra esse “gap” civilizacional. André Ventura, nisso, tem razão: o principal problema do país é a hipocrisia. Basta ver o desfile de virgens ofendidas – e antes tão distraídas – que vêm enchendo de indignação o espaço televisivo bem falante.

Mas não minimizemos a barbárie: se a história da pizza é uma ridicularia, os urros racistas são prenúncio de morte. Há dias, a intolerância racial assassinou mais uma dezena de pessoas na Alemanha. É essa ceifeira sonsa, que avança pela calada, que é preciso travar.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 22fev20

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