A cabeça de Zico na prevenção do crime

O caso do guarda-redes Bruno, que de ídolo dos adeptos do Flamengo e candidato a um lugar no plantel do AC Milan caiu no estatuto de bandido – suspeito de cumplicidade no assassínio de uma ex-namorada de quem tem um filho – leva-nos a refletir sobre a ligação dos novos-ricos da bola ao mundo do crime.

Mas essa reflexão torna-se mais interessante e aproxima-se bem melhor da realidade se a ela se associar uma personalidade como Arthur Antunes Coimbra, o conhecido Zico, que foi um dos melhores jogadores do Planeta e se tornou depois num treinador de sucesso.

Hoje dirigente do Flamengo, talvez o mais popular emblema brasileiro, Zico deu à newsmagazine “Veja” uma entrevista em que explica praticamente tudo. Diz ele: “Discordo daqueles que acham que o clube não deve intervir na vida privada dos atletas sob nenhuma hipótese”. E o diretor-executivo do “Mengão” revela mesmo o que sucedia antes da sua chegada, quando os jogadores passavam  as noites na farra: “Chegou-se a um estágio em que o técnico marcava um treino para a manhã e aparecia sempre alguém do lado para dizer: é melhor colocar esse horário para mais tarde senão vai dar problema. Alguns atletas não queriam estar tão cedo no clube e tinham a sua demanda atendida”.

Zico toca mais à frente com o dedo na ferida, o efeito perverso dos contratos milionários: “É uma distorção. Pior ainda quando os jogadores usam o dinheiro para fazer negócios com bandidos. Eles alegam a origem humilde para justificar a proximidade com os criminosos. Pura desculpa. O subúrbio carioca onde eu morava era tomado de bicheiros e jamais me passou pela cabeça me unir a eles”.

A realidade de Portugal é, neste particular, muito diferente da do Brasil, mas será bom que os nossos clubes ponham as barbas de molho e contratem, em vez de calhaus com olhos, “cabeças de Zico”, técnicos e gestores que imponham os valores da disciplina e do cumprimento das regras, e invistam na preservação da imagem e na formação do caráter. Antes de meter os criminosos na cadeia há que tentar evitar que se tornem delinquentes. E que façam vítimas.

Minuto 0, publicado na edição impressa de Record de 30 julho 2010

Partilhar

Os comentários estão fechados.