Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

A cabeça de Messi já não mora ali

Os adeptos do futebol geralmente dividem-se em três grandes grupos: os que gostam de Cristiano Ronaldo e detestam Messi, os que apreciam o argentino e banalizam o português, e os que – como é o meu caso – estão gratos por lhes ter sido permitido viver a era em que dois dos maiores monstros da história da modalidade assumiram uma rivalidade que nos tornou mais felizes. Não consigo entender que se veja jogar Messi e não se lhe reconheça um talento inigualável. Ou que se olhe para o que tem feito Cristiano e se possa encontrar um competidor da sua grandeza. Em qualquer dos casos, não há melhor, ponto.

Os detratores de CR7 exultaram com a sua saída do Real Madrid para jogar num campeonato mais “fechado” e que podia acelerar o ocaso da sua carreira – como se isso, se acontecesse, apagasse o que já consta dos livros! Daí que se sintam frustrados com os 42 golos do fenómeno da Madeira em 2020 – em 42 jogos – que só Lewandowski (43 em 42) logra superar, até ver.

Agora, é a vez de içarem bandeiras os inimigos de Leo, que vendem felicidade pela baixa de rendimento do capitão do Barcelona. Terão vivido, aliás, duas horas de sonho na semana passada, vendo a derrota de Camp Nou frente à Juventus e a forma como sete (!) remates de Messi morreram nas mãos do lendário Buffon. Não se tratou de um desacerto pontual, antes de mais um desempenho abúlico de um profissional desconsiderado por um clube que, quase tudo lhe tendo dado, nada lhe deu que não fosse retribuído.

Messi não tem a cabeça de Cristiano – que não descansou até se despedir de Florentino Pérez, depois de também não ter sido tratado como merecia. E quis partir na altura errada. Não contou que lidava com homens sem palavra, que o obrigaram a cumprir um compromisso de que se julgava livre e a suportar por mais uma época uma entidade patronal sem projeto e na qual não acredita. A selvagem dispensa de Luis Suárez – que caiu pior, muito pior a Leo do que caiu a Cristiano a não renovação pelo Real do contrato de Pepe – deixou a estrela das pampas sem o amigo dileto e sem referências no Barça. Também já não havia Xavi, nem Iniesta, nem Neymar…

Assim se apoderou de Messi um tédio que não lhe permite atingir o nível de excelência a que habituou os estádios do Planeta. Joga porque tem de jogar, e lidera em campo por respeito ao clube e aos companheiros, mas na verdade o seu coração anseia por novo abrigo, a sua cabeça já não mora ali. Em três semanas, confirmará a decisão tomada, em seis meses enfrentará um desafio diferente. Só tenho pena que não seja em Turim.

O último parágrafo vai para Jesualdo Ferreira, que retoma agora, no Boavista, o trabalho que mal havia iniciado em 2006, quando o FC Porto o foi buscar para ser tricampeão nacional e duplo vencedor da Taça. Como é bom vê-lo de novo no ativo, em Portugal e na frescura dos 74 anos, pronto a colocar ao serviço do futebol o seu imenso arsenal de experiência e conhecimento… Chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 14dez20