A BCG que me arruinou o pé esquerdo

Tenho aproveitado a modorra destes dias estranhos para arrumar papéis e eliminar fotos repetidas ou irrelevantes, tralha que um dia quem cá ficar destruirá com a indiferença das novas gerações pela memória. Também não recomendo outra coisa, que bem tenho visto como os espólios de dedicados acumuladores de documentos – sejam jornais ou revistas, livros ou fotografias, ainda que raríssimos e de valor inestimável – apodrecem nas caves de beneficiários sem mãos, tempo, interesse ou vontade para lhes darem destino digno e útil.

E agora, que se aproxima o dia em que terminará de vez a minha ligação ao Record – que já vai no 18.º ano, ai, ai… – mexer em papelada significa ter de recordar a forma como iniciei um longo percurso ligado ao desporto e que se finará precisamente aqui, neste encontro semanal com o leitor.

Até aos 8 anos, corri atrás da bola e defendi os remates do meu pai, na baliza improvisada com dois montinhos de areia, nas praias de Santo Amaro de Oeiras e de Carcavelos. Só quando fui para a escola primária, em Canas de Senhorim, me apercebi do prazer que me dava jogar futebol.

As condições eram terríveis, no largo pedregoso e inclinado da antiga feira, ora poeirento, ora enlameado. A bola, feita de trapos, ia-se desfazendo, o que por vezes nos obrigava a acabar a peleja a chutar uma pedra. Isso criava dois problemas, um grande e um ligeiro. Este último era o das botas, uma peça única que o meu pai mandava cardar, com pequenas tachas pregadas na sola, e eu ameaçava estragar, pelo que o futebol não reunia a aprovação da família. O problema real, porém, sentiam-no outros jogadores – a imensa maioria que ia descalça para a escola e se feria nos pés – alguns mais do que já estavam, pois no Inverno havia ainda as frieiras… E nem assim desistiam da bola, eram uns heróis!

Mas os primeiros passos da jogatana cedo me revelaram um drama: a “cegueira” do meu pé esquerdo. Por mais que tentasse lutar contra a inaptidão, não via progressos. Até que uma vez, tendo de tirar uma bota que me magoava, um colega viu uma marca estranha no peito do pé “cego” e sentenciou: “O Tomané tem a pata estragada!” E tinha razão, a minha mãe não deixou que me vacinassem no braço com a BCG – que se admite hoje que possa atenuar a gravidade da Covid-19! – para que a cicatriz não fosse visível, e fui então carimbado no pé esquerdo. Quem sabe se a abençoada decisão não terá matado precocemente a qualidade artística do rapaz…

Um último parágrafo para o futebol a sério, para a grande vontade que regresse e para as nuvens negras que persistem no horizonte. Sábio, o líder da FIFA, Gianni Infantino, veio dizer que “ninguém sabe quando o futebol voltará a ser o que era”. E não é só pelo caos instalado mas igualmente pelo que está para vir. Cientistas chineses afirmam agora que o coronavírus na Europa já provoca sintomas diferentes, o que significará a existência de novas estirpes e de maior dificuldade no seu combate… Será que verei nascer o dia em que deixaremos de desconfiar uns dos outros para que se voltem a encher os estádios?

Outra vez segunda-feira, Record, 13abr20

Partilhar

Os comentários estão fechados.