Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

A arte de dizer não é para todos

Numa curta intervenção semanal na Hora Record da CMTV, confirmo o que já sabia: proferida a asneira, é sempre tarde para a corrigir. Ao contrário do que acontece com a palavra dita, na escrita funciona-se com rede, o computador, que nos evita os desaires. Basta ler, voltar atrás e recomeçar até dar certo, não há “engasganços”.

Para falarmos com fluidez e seguirmos uma linha de raciocínio que possa ser acompanhada por quem nos ouve, precisamos de ter um dom: o da comunicação oral. Ou dispor, ao menos, de um mínimo de tempo para preparar o discurso. Como diz o jornalista António Ribeiro Cristóvão, “o improviso dá muito trabalho”.

Quando revejo os meus comentários, para além de alguma inexatidão ou explicação deficiente, que me irritam sem remissão, arrepio-me com os termos que repito: é o “curioso”, o “fantástico”, o “interessante”, o “enfim”, o “de facto”, ou simplesmente o “bem” antes de qualquer frase.

Mas na última quarta-feira, na análise – aliás, excelente – do Arsenal-Barcelona, na Sport TV, o treinador Domingos Paciência deixou-me mais animado ao recorrer 13 vezes (!) à expressão “não haja dúvida”, entre os 71 e os 84 minutos de jogo. Como o jeito para a bola ou a vocação para a escrita, a arte de dizer não é para todos – disso, não haja dúvida.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 27FEV16