Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Les petits Français

Compatriotas de Nicolas Chauvin, soldado condecorado por Napoleão pelo seu heroísmo e depois mais conhecido pela sua imensa vaidade, “les petits Français” deram à Seleção o empurrão que faltava, puxando pelo brio dos nossos futebolistas e adormecendo, em simultâneo, o ego sobredimensionado dos seus próprios jogadores – alguns bons, poucos geniais, todos a valer vento e milhões.

Nojento. Esse chauvinismo, exercido com paixão pela comunicação social gaulesa, expressou-se com clareza e deselegância, e foi desde o “futebol nojento” da equipa portuguesa à “falta de visão de jogo e lucidez tática de Renato Sanches” ou à incapacidade de William Carvalho para fazer “uma transversal de 30 ou 40 metros”. E se é verdade que tanto o reforço do Bayern como o pivô do Sporting não fizeram ontem um enorme jogo, também é certo que o futebol da Seleção foi menos nojento do que o protagonizado pelos “bleus”, que viveram, por 120 minutos, praticamente só da inspiração de Sissoko e da capacidade técnica, e física, de Pogba.

Cacetada. Mas os franceses foram ainda “nojentos” pelo modo violento como atuaram, em especial na primeira parte. E eu, que venho infelizmente do tempo dos campos pelados – e não das Salésias, como diz o outro, porque aí já havia relva – e vi muitos jogos dos distritais, sei bem como há 50 e tal anos se marcava, antes do apito inicial, a estrela do adversário, e como se definia que se lhe arreasse uma cacetada logo na primeira oportunidade. Foi com essa “tática”, a mais velha do futebol, que os franceses arrumaram Cristiano.

Engenheiro. Serviu-lhes de pouco porque a noite da saída prematura do melhor jogador do Planeta fora traçada por ínvios caminhos. Depois de Nani, Ricardo Quaresma, Renato Sanches, Adrien, Moutinho, Raphael, Pepe ou Cristiano – e por que não José Fonte e até Bruno Alves? – terem vivido momentos que de uma forma ou outra nos conduziram à final, a partida de Paris estava destinada ao brilho definitivo de Rui Patrício e à vingança do ás de trunfo que o engenheiro das premonições lançou na hora certa: Éder ou Éderzito, o tosco, o feio, o preto, o ex-alvo preferido da chacota torpe das redes sociais. Foi ele que logo pôs em sentido os centrais franceses, que jogou maravilhosamente de costas para a baliza e que, no minuto escolhido pelos deuses e sem linhas de passe, desferiu, por Cristiano e ao nível de Cristiano, o remate que redimiu um país. Tudo se fez com todos, mas sem a fé de Fernando Santos todos pouco ou nada teriam feito.

Contracrónica, Record, 11JUL16