O assalto à rádio oficial em 25 de novembro de 1975

Quatro décadas passadas, as feridas causadas pela tentativa de golpe de estado de 25 de Novembro de 1975 parecem saradas, já que alguns dos inimigos de então abraçam hoje, no Parlamento, a causa comum da esquerda para derrotar a direita – a velha reacção de há 40 anos.
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O edifício da EN, na Rua do Quelhas, em Lisboa, foi ocupado pelo Copcon e pela PM

Cinjo-me assim ao assalto desse dia 25 à empresa onde trabalhava, a Emissora Nacional (EN), e respigo pequenas passagens do depoimento, reduzido a escrito, do presidente da rádio oficial, major João Figueiredo (PD no texto), futuro secretário de Estado da Comunicação Social do Governo de Nobre da Costa, em 1978, e ministro da mesma pasta no Executivo de Maria de Lourdes Pintasilgo, em 1979.
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O edifício das Amoreiras foi tomado pela PM minutos depois da saída de João Figueiredo

“(…) Pouco tempo depois” – cerca das 17 horas – “telefona o capitão engenheiro da Força Aérea, Neves Moreira, querendo falar com o PD. Identificou-se e informou: ‘Tenha cuidado com os comunicados que a EN está a fazer’, ao que o PD respondeu: ‘De onde é que está a falar?’ Resposta do capitão Moreira: ‘Estou a falar do Copcon e junto de mim está o major Tomé’. Continuou o PD: ‘Está a referir-se a que comunicados?’ Resposta do capitão Neves Moreira em altos gritos: ‘Meu major, não esteja a fazer que não percebe. O que se está a passar é mesmo importante e esta minha missão pode considerar-se diplomática. O senhor está na corda bamba, ou vai para um lado ou para outro’. Resposta do PD: ‘Você não me esteja a ameaçar porque eu não tenho medo de você nem de ninguém’. Retorquiu o capitão Moreira: ‘Faça o que entender mas o Copcon vai aí e ocupa a EN’. O PD respondeu então: ‘Isto parece a guerra do Solnado. A EN’ – João Figueiredo referia-se aos estúdios da Rua do Quelhas – ‘já está ocupada pelo Copcon e pela Polícia Militar’. (…) Às 17h30 o redactor Guilherme Barbosa informou telefonicamente o presidente do seguinte: ‘O aspirante Pena apresentou-se dizendo tomar conta da EN por ordem do General Otelo’. (…) Cerca das 18h10 o PD viu através da TV os apelos do Capitão Clemente às massas populares para que estas se juntassem na EN e na RTP a fim de as guarnecerem contra os Comandos, que teriam recebido ordens para desalojar a EN e a RTP.
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Passagem do depoimento de João Figueiredo, reduzido a escrito

Às 18h15 (…) o PD transmitiu para Coimbra as ordens da Presidência da República para que a programação fosse feita a partir do Norte. (…) Às 20h30 o PD deu ordem aos militares da sua equipa e à Comissão de Trabalhadores (CT) para que se ausentassem, por ter a noção de que a equipa militar do Quelhas se reforçava. Pretendendo o PD permanecer nas Amoreiras, foi aconselhado insistentemente pelo elemento da CT, Alexandre Pais, para que saísse” (…).
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O capitão Duran Clemente tomou a emissão na RTP e apelou às massas populares para defenderem a rádio e a televisão oficiais

Minutos após a nossa partida, a Polícia Militar ocupava o edifício-sede da EN, nas Amoreiras. Entretanto, a emissão passou dos estúdios de Lisboa para os do Porto, como tinha sido planeado dias antes. E com a tomada dos emissores da RTP, em Monsanto, pelos Comandos, a normalidade chegaria também à televisão oficial.
Mas a jornada de João Figueiredo continuou no Palácio de Belém. Trataremos disso para a semana.
Parece que foi ontem, Sábado, 19NOV15
 
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